1- O que é um editorial?
A linguagem jornalística adota o padrão culto da língua sem, contudo, perder o universo vocabular do leitor. O jornal procura organizar-se e adaptar-se às condições cognitivas do público leitor. Podemos dizer também que o jornal substituiu as cadeias dialógicas e narrativas as quais eram dadas a conhecer os fatos pelo boca a boca, anterior a imprensa. Com essa substituição, o ato de comunicação, pertinente ao intercâmbio de experiências, ficou, em parte, por conta do jornal, que traz os fatos ocorridos em diversas partes do mundo, numa seqüência de laudas escritas. O objeto de nosso estudo é o gênero jornalístico, para isso trouxemos o editorial do jornal O Globo. O editorial e a parte mais importante do jornal que expressa o ponto de vista deste sobre os fatos relevantes, levando em conta os reflexos e transtornos que estes fatos causam na vida social.
O texto de caráter opinativo explicita o pensamento da instituição mantenedora que, ao abordar a uma notícia ou a um tema qualquer, posiciona de forma crítica a uma vertente. Dessa forma a ideologia defendida pelo jornal perpassa ao interlocutor e o faz, muitas vezes, posicionar-se com a mesma tomada de opinião do editorialista. A começar pelo titulo: ”Nossa Opinião” (caso específico do jornal O Globo) que contribui para que o pensamento de editor seja absorvido pelo leitor.
No discurso, o editor utiliza linguagem denotativa para dar clareza sem incorrer no risco das ambigüidades da conotação. O texto possui a estrutura argumentativa que parte do pressuposto: tema, tese e desenvolvimento com o discurso mais objetivo possível e dispondo da neutralidade, melhor seria dizer um distanciamento, com verbos na primeira pessoa do plural. Esse recurso pessoal do verbo induz o leitor a acreditar que essa é sua opinião.
No título do editorial que tomamos como objeto de estudo “Um Passo”, notamos que a posição do sujeito-autor em relação ao tema (Segurança púbica) e de criticar o letargo, a falta de preparo e equipamentos de inteligência das instituições públicas de segurança no que tange a ineficiência dos serviços prestados à sociedade. O editorialista serve-se com isso da liberdade de imprensa no país para criticar, polemizar, depreender os assuntos que viram notícias e são pertinentes ao conhecimento do interlocutor.
2- Semelhanças e diferenças entre crônica e editorial:
A crônica e o editorial estão veiculados no jornal e ambas são produzidas e assinadas por pessoas renomadas e competentes para faze-lo, dentro da instituição que veicula. Ambas tratam de fatos da atualidade e se posicionam desta ou daquela forma para comunicar algo ao leitor, e tem como especificidades à efemeridade. No que tange às diferenças, o editorial carrega sobre si a responsabilidade de levar a púbico a opinião do jornal, a voz da instituição. A crônica, no entanto, traz a opinião do cronista que tem a função de recriar a noticia e tem a liberdade na linguagem e no conteúdo para produzir e explorar bem o assunto. O cronista discute o tema abordado de forma própria e até na composição estética do texto difere-se do editorial.
O cronista faz de sua crônica um diálogo com o leitor por sua linguagem subjetiva e suas conotações. Rubem Braga, famoso cronista, é um exemplo de diálogo entre escritor e leitor: “Mas ainda insistem?” “Ah, se eu pudesse escrever, aqui, insultos e adjetivos que tenho no bico da pena..” (Ao Respeitável publico) este trecho nos mostra uma forma própria da crônica, verbo na primeira pessoa do plural, trabalha com uma linguagem humorística e irônica, e com esses recursos Rubem Braga fala da enfadonha rotina de ter que escrever para agradar ao leitor. O “EU” constantemente presente na crônica aliado ao espírito criativo do cronista, muitas vezes, eleva o texto da crônica a um tom poético, um lirismo na prosa que estreita as relações entre crônica, poesia e poema.
Essas características estão notavelmente ausentes no editorial, onde a linguagem é objetiva, cientifica e com a neutralidade dos verbos em primeira pessoa do plural. Estes recursos adotados pelo editorialista são para dar respeito e aceitabilidade da matéria ao meio jornalístico.
O editorial tem como finalidade comunicar os fatos de forma clara sem dar margem para outras compreensões. O editorial nos dá ainda, subsídios para analisar – coma ótica do jornal, exceto o de título: Outra opinião– a formação discursiva que deriva das ideias sobre o assunto discutido. A crônica aborda temas atuais, mas não tem a função de persuadir apenas de levar o leitor a refletir o tema. De certo modo essa reflexão é inusitada se comparada ao modo tomado por outros gêneros jornalísticos justamente pela liberdade de que dispõe o cronista. Liberdade que leva o cronista a ousar e compor as crônicas com recursos e sonoridade, metáforas, metonímias, aliteração e outros. Isso aproxima a produção jornalística aos requisitos dos textos literários. O que atualmente é inexistente nos editoriais.
2- Relação entre o poema “Morte do leiteiro” de Drummond e crônica e poesia:
“O historiador e o poeta não se distinguem um do
outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa
e o segundo em verso (Pois, se a obra de Heródoto
composta em verso, nem por isso deixaria de ser
obra de historia figurando ou não o metro nela)
diferem entre si porque um escreveu aquilo que
aconteceu e o outro aquilo que poderia ter
acontecido...”“.
(Aristóteles.Arte Poética.cap.IX pág.43)
O poema de Drummond “A morte do leiteiro” aproxima-se de uma crônica porque ambas possuem verbos na primeira pessoa do singular com o EU muito presente e atuante nas ações. O teor das crônicas também, no geral, é bastante lírico com um derramamento das subjetividades, que logo percebemos um fazer poético por parte do cronista. Isso gera uma espécie de poesia em prosa ou prosa poética que dão a crônica status muitas vezes literários.
O poema referido dialoga com a crônica porque usa como matéria-prima a noticia, uma informação, algo da atualidade como a morte, violência, crime etc. Com esses elementos fez a composição do poema, com o núcleo temático da crônica. Mas o âmago do poema (A morte do Leiteiro) é a estética, o fazer literário que trabalha com recursos sonoros, imagens, metáforas, aliteração e com a liberdade de recriar e fingir, passear em meio ao inverossímil sem se preocupar com o juízo do interlocutor que sabe por onde divaga os textos literários. Nem a uma crônica versificada se atribui na totalidade caráter poético porque sempre terá que tangenciar o verossímil. Talvez essa seja a barreira, ainda, entre esses gêneros. O cronista trabalha seu ente poético, mas sabendo dos limites entre os dois gêneros.
A crônica tem recursos estilísticos, mas não deixa estes comprometer a compreensão do texto visto que os fatos históricos sempre sobrepujam a ficção e o eu, mesmo quando o tema é naturalmente poético. Vemos isso em Drummond: seu interesse é muito mais com a estética do texto do que com a própria informação. Já a crônica é pertinente a sua linguagem referencial com o intuito de informar e expressar sem comprometer essa função com os produtos da imaginação e da fantasia criadora. A arte poética próxima das crônicas ajuda a recriar o fato trivial, frio e melancólico de reportagens e notícias por uma criação leve e descontraída pela criação do autor.
Bibliografias:
Jornal O Globo
Arte poética.Aristóteles.ed.Martin Claret.2005
Apostilas fornecidas pelo professor: A Crônica
Resumo do trabalho apresentado ao UNIPLI.