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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Gêneros Editorial e Crônica


1- O que é um editorial?

A linguagem jornalística adota o padrão culto da língua sem, contudo, perder o universo vocabular do leitor. O jornal procura organizar-se e adaptar-se às condições cognitivas do público leitor. Podemos dizer também que o jornal substituiu as cadeias dialógicas e narrativas as quais eram dadas a conhecer os fatos pelo boca a boca, anterior a imprensa. Com essa substituição, o ato de comunicação, pertinente ao intercâmbio de experiências, ficou, em parte, por conta do jornal, que traz os fatos ocorridos em diversas partes do mundo, numa seqüência de laudas escritas. O objeto de nosso estudo é o gênero jornalístico, para isso trouxemos o editorial do jornal O Globo. O editorial e a parte mais importante do jornal que expressa o ponto de vista deste sobre os fatos relevantes, levando em conta os reflexos e transtornos que estes fatos causam na vida social.

O texto de caráter opinativo explicita o pensamento da instituição mantenedora que, ao abordar a uma notícia ou a um tema qualquer, posiciona de forma crítica a uma vertente. Dessa forma a ideologia defendida pelo jornal perpassa ao interlocutor e o faz, muitas vezes, posicionar-se com a mesma tomada de opinião do editorialista. A começar pelo titulo: ”Nossa Opinião” (caso específico do jornal O Globo) que contribui para que o pensamento de editor seja absorvido pelo leitor.

No discurso, o editor utiliza linguagem denotativa para dar clareza sem incorrer no risco das ambigüidades da conotação. O texto possui a estrutura argumentativa que parte do pressuposto: tema, tese e desenvolvimento com o discurso mais objetivo possível e dispondo da neutralidade, melhor seria dizer um distanciamento, com verbos na primeira pessoa do plural. Esse recurso pessoal do verbo induz o leitor a acreditar que essa é sua opinião.

No título do editorial que tomamos como objeto de estudo “Um Passo”, notamos que a posição do sujeito-autor em relação ao tema (Segurança púbica) e de criticar o letargo, a falta de preparo e equipamentos de inteligência das instituições públicas de segurança no que tange a ineficiência dos serviços prestados à sociedade. O editorialista serve-se com isso da liberdade de imprensa no país para criticar, polemizar, depreender os assuntos que viram notícias e são pertinentes ao conhecimento do interlocutor.

2- Semelhanças e diferenças entre crônica e editorial:

A crônica e o editorial estão veiculados no jornal e ambas são produzidas e assinadas por pessoas renomadas e competentes para faze-lo, dentro da instituição que veicula. Ambas tratam de fatos da atualidade e se posicionam desta ou daquela forma para comunicar algo ao leitor, e tem como especificidades à efemeridade. No que tange às diferenças, o editorial carrega sobre si a responsabilidade de levar a púbico a opinião do jornal, a voz da instituição. A crônica, no entanto, traz a opinião do cronista que tem a função de recriar a noticia e tem a liberdade na linguagem e no conteúdo para produzir e explorar bem o assunto. O cronista discute o tema abordado de forma própria e até na composição estética do texto difere-se do editorial.

O cronista faz de sua crônica um diálogo com o leitor por sua linguagem subjetiva e suas conotações. Rubem Braga, famoso cronista, é um exemplo de diálogo entre escritor e leitor: “Mas ainda insistem?” “Ah, se eu pudesse escrever, aqui, insultos e adjetivos que tenho no bico da pena..” (Ao Respeitável publico) este trecho nos mostra uma forma própria da crônica, verbo na primeira pessoa do plural, trabalha com uma linguagem humorística e irônica, e com esses recursos Rubem Braga fala da enfadonha rotina de ter que escrever para agradar ao leitor. O “EU” constantemente presente na crônica aliado ao espírito criativo do cronista, muitas vezes, eleva o texto da crônica a um tom poético, um lirismo na prosa que estreita as relações entre crônica, poesia e poema.

Essas características estão notavelmente ausentes no editorial, onde a linguagem é objetiva, cientifica e com a neutralidade dos verbos em primeira pessoa do plural. Estes recursos adotados pelo editorialista são para dar respeito e aceitabilidade da matéria ao meio jornalístico.

O editorial tem como finalidade comunicar os fatos de forma clara sem dar margem para outras compreensões. O editorial nos dá ainda, subsídios para analisar – coma ótica do jornal, exceto o de título: Outra opinião– a formação discursiva que deriva das ideias sobre o assunto discutido. A crônica aborda temas atuais, mas não tem a função de persuadir apenas de levar o leitor a refletir o tema. De certo modo essa reflexão é inusitada se comparada ao modo tomado por outros gêneros jornalísticos justamente pela liberdade de que dispõe o cronista. Liberdade que leva o cronista a ousar e compor as crônicas com recursos e sonoridade, metáforas, metonímias, aliteração e outros. Isso aproxima a produção jornalística aos requisitos dos textos literários. O que atualmente é inexistente nos editoriais.

2- Relação entre o poema “Morte do leiteiro” de Drummond e crônica e poesia:

“O historiador e o poeta não se distinguem um do
outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa
e o segundo em verso (Pois, se a obra de Heródoto
composta em verso, nem por isso deixaria de ser
obra de historia figurando ou não o metro nela)
diferem entre si porque um escreveu aquilo que
aconteceu e o outro aquilo que poderia ter
acontecido...”“.
(Aristóteles.Arte Poética.cap.IX pág.43)

O poema de Drummond “A morte do leiteiro” aproxima-se de uma crônica porque ambas possuem verbos na primeira pessoa do singular com o EU muito presente e atuante nas ações. O teor das crônicas também, no geral, é bastante lírico com um derramamento das subjetividades, que logo percebemos um fazer poético por parte do cronista. Isso gera uma espécie de poesia em prosa ou prosa poética que dão a crônica status muitas vezes literários.

O poema referido dialoga com a crônica porque usa como matéria-prima a noticia, uma informação, algo da atualidade como a morte, violência, crime etc. Com esses elementos fez a composição do poema, com o núcleo temático da crônica. Mas o âmago do poema (A morte do Leiteiro) é a estética, o fazer literário que trabalha com recursos sonoros, imagens, metáforas, aliteração e com a liberdade de recriar e fingir, passear em meio ao inverossímil sem se preocupar com o juízo do interlocutor que sabe por onde divaga os textos literários. Nem a uma crônica versificada se atribui na totalidade caráter poético porque sempre terá que tangenciar o verossímil. Talvez essa seja a barreira, ainda, entre esses gêneros. O cronista trabalha seu ente poético, mas sabendo dos limites entre os dois gêneros.

A crônica tem recursos estilísticos, mas não deixa estes comprometer a compreensão do texto visto que os fatos históricos sempre sobrepujam a ficção e o eu, mesmo quando o tema é naturalmente poético. Vemos isso em Drummond: seu interesse é muito mais com a estética do texto do que com a própria informação. Já a crônica é pertinente a sua linguagem referencial com o intuito de informar e expressar sem comprometer essa função com os produtos da imaginação e da fantasia criadora. A arte poética próxima das crônicas ajuda a recriar o fato trivial, frio e melancólico de reportagens e notícias por uma criação leve e descontraída pela criação do autor.

Bibliografias:
Jornal O Globo
Arte poética.Aristóteles.ed.Martin Claret.2005
Apostilas fornecidas pelo professor: A Crônica
Resumo do trabalho apresentado ao UNIPLI.

Análise do poema Sobôlos rios de Camões

O poema “Sobolos rios” de Camões possui uma intertextualidade que nos conduz a um diálogo com a história mundial, com a bíblia, com Santo Agostinho e com a filosofia platônica. Essa polifonia revela a dualidade de Camões: céu x terra, graça x pecado. A sua lírica em “Sobolos rios” é um canal que nos leva à interminável, dialética entre o celeste e o terreno. A via pela qual discorre esse manancial é a filosofia de Platão que caminha separada, mas que num certo ponto do poema se condensa ao pensamento cristianizado de Santo Agostinho.
Os caracteres gerais da lírica de Camões revelam uma grande relação entre eu-biográfico e eu-lírico. A essência camoniana, como poeta, parece encharcar suas poesias. O eu-lírico é uma voz do próprio poeta, haja vista muitos poemas terem sido construídos rememorando paixões, amores e decepções que tivera na vida.
O diálogo que o poema faz com a história, ou com a própria vida do poeta serve de componentes ou fragmentos de matéria prima para a construção da obra. Camões, por muito tempo, ficara distante de Portugal. Foi à China e por algum tempo trabalhou nesse país. Mas, foi na África que viveu parte do seu “exílio”, longe de pátria e da sua gente, cantando as saudades de Sião, que por hora estava distante. Por longos anos Camões viajara em combates. Camões era um peregrino e um desterrado em boa parte da vida. Sobolos rios traz um eu – lírico saudoso de sua terra, de sua origem. Dessa forma, observamos uma relação entre vida e obra de um autor exilado. O engenho de Camões prossegue quando traz o diálogo com a história santa da terra de Israel. O eu-lírico se coloca como exilado em solo estranho. A própria sagrada escritura serve de apoio para ratificar a purgação e o sofrimento dele. Entra, por isso, o conflito interior entre a realidade terrena e a celeste. Nessa perspectiva ele opta por uma das realidades ao longo do seu lirismo saudosista para alcançar seu designo, o céu.

Babilônia e África:

“Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias” (Salmo 136, 5.6)
O povo judeu foi deportado para Babilônia em 580 a.C. Esse povo sofria e chorava às margens dos rios que cortavam a Babilônia. Milhares de Judeus esperavam o dia em que Deus, mais uma vez, fosse lembrar-Se deles e reconduzi-los à Terra Prometida. Conforme as profecias do profeta Jeremias (cap.25,12), o tempo do cativeiro foi de 70 anos.

“Terra bem aventurada,
se por algum movimento
d’alma me fores tirada,
minha pena seja dada
a perpétuo esquecimento.
A pena desse desterro,
que eu desejo esculpido
em pedra, ou em feno duro.
Essa nunca seja ouvida
Em castigo de meu erro.”
(Versos 181-190)

Os dois fragmentos revelam o exílio, tanto do povo judeu que ficou exilado na Babilônia, quanto de Camões que passara 14 anos longe de sua terra natal, sofrendo a saudade da distância, as dores daquela Babilônia infernal. O tédio impregna todo o ser do eu-lírico. As lembranças, memórias do que vivera parecem destruir seu mundo interior. O corpo, a matéria sofrida e cansada pelas circunstâncias, a dura vida na terra de dor, de angústia, nem cantar os aliviaria. Se a lembrança, memória do passado, lhe afagava com o bem , o presente lhe causava um mal ao corpo.
O mundo sensível está fadado à efemeridade, as intempéries da vida; o exílio, a doença, as guerras, o medo; A carne humana, que é fraca, não resiste à dor , ao sofrimento. Nessa perspectiva o poeta inverte a situação. Para vencer o mundo sensível, ele se apega à alma, às coisas espirituais. Consequentemente, confrontam-se o mundo sensível e o mundo inteligível de Platão, que segue a religiosidade de Santo Agostinho. O eu-lírico segue a verticalização da ascese espiritual do mundo inteligível em detrimento do horizontal mundo sensível.
Por isso, o poema “Sobolos rios” traduz a travessia do eu-lírico do mundo material para o mundo espiritual. A transcendência não ocorre de súbito, mas sim através de uma mudança lenta, gradativa e conflitante.
O ponto inicial do poema é a estrofe abaixo:

“Sobolos rios que vão
Por Babilônia m’achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.
Ali o rio corrente
De meus olhos foi manado;
E tudo bem comparado,,
Babilônia ao mal presente
Sião ao tempo passado.”
(Versos 1-10)

A disposição anímica do eu-lírico já revela o descontentamento com as situações vividas. As lágrimas brotadas nos olhos são sinais da memória, lembrança da pátria ausente. No salmo 136, os babilônios pediram que esse eu-lírico tocasse a flauta os cantos da terra de Sião. Como poderia cantar, nessa terra, o canto da mocidade? O eu-lírico pendurou os instrumentos do salgueiro. O canto ledo transformou-se em luto, em dor depois que deixou sua terra. A música leda estava consagrada à memória.
Seria, de fato, sem razão ou mesmo sem caráter cantar o vencido, ao vencedor, o canto da terra enquanto o peito se banha em lágrimas.
A dor leva o eu-lírico pelo caminho da iluminação, da religiosidade em detrimento àquela vida material sofrida do plano humano. Repleto de contradições, incertezas consubstanciais ao saber, a experiência, a imaginação, a memória, a razão, a sensibilidade. A macroestrutura do poema vai se delineando tal como é o poeta, de conflitante, refletindo sua confusão anterior: mundo sensível x mundo inteligível, céu x terra. O caminho poético desse poeta das antíteses, dos paradoxos e das contradições, irá, mais uma vez, traçar um caminho de mão dupla de sua personalidade ser ou não ser. Eis a questão que denuncia a maestria de Camões. Um caminho é o mundo sensível, sensorial, que se consuma através das experiências da vida social, a horizontalidade da vida, um caminho seguido por lutas, conflitos, choques culturais, econômicos, lutas pela sobrevivência. Um outro caminho é o do mundo inteligível, das idéias, das reminiscências.
“Sobolos rios” possui esses dois caminhos, que ora se apresenta separadamente, ora se mesclam até um repelir decisivamente o outro. Há, então no poema um afunilamento, uma redução de vias. Com esse fato o mundo sensível se choca definitivamente com o inteligível. O eu-lírico opta pelo caminho mundo inteligível, das idéias, o caminho vertical, por isso passa a buscar as coisas lá do alto.
Seguindo o pensamento cristão de Santo Agostinho e da doutrina católica, o homem tem a Cristo como o arquétipo, padrão de homem a ser seguido. Jesus existe antes de tudo. Por Ele e para Ele todas as coisas foram criadas. A vida de Jesus, sumariamente, está dividida em nascimento, paixão, morte, ressurreição e ascensão. No pensamento Agostiniano o homem precisa passar por esse mesmo processo. E a paixão seria toda a estadia nesse mundo sensível. A matéria, pelo pecado, desde o Gênesis está fadada às conseqüências do tempo e presa ao sofrimento que conota a purgação, regeneração. Justamente o viés tomado por Camões: purgar seu eu-lírico, a fim de que ele se achegue pela morte (do pecado) à ressurreição (da graça santificante), que levará o ser a ascensão, aos céus.
O mundo factual do qual fazia parte Camões também era assaz complexo e contraditório. Um longo período de Idade Média, outro longo período de Renascimento, que em seu final já tendia ao Maneirismo, o qual precedeu o estilo Barroco. A conseqüência dessas confluências era um ser fragmentado, ora muito humano, ora muito celeste, ora apegado ao materialismo da carne, ora rejeitando-a.
Num processo paulatino, elementos opostos do mundo sensível vão sendo absorvidos pelos do mundo inteligível, de forma cristianizada. Vão sendo substituídos: a memória pela reminiscência, a confusão pela paz, a tristeza pela alegria, o amor humano pelo amor celeste, a particular beleza pela beleza geral, já que o bem maior não está nas relações conflitantes da terra, mas na harmonia celeste. A felicidade não está essa Babilônia, terra de dor, está na Jerusalém celeste, terra de glória. Em razão disso, o sofrimento dessa terra de dor é a purificação para se chegar à glória.
A terra bem aventurada é, agora, a pátria celeste. Essa herança é o quinhão dos que lutam para alcançar a saúde, a salvação.

“A Palinódia já canto.
A vós só me quero ir,
Senhor e grã capitão
Da alta torre de Sião
A qual não posso subir
Se me vós não dais a mão.”
(Versos 274-280)

O canto sagrado da Palinódia é ouvido. Os tempos de medo e tristeza se acabam. O tempo da paixão, da passagem para expiação termina. O eu-lírico agora se compraz na ascensão, na verticalidade. As reminiscências da alma, quinhão doado por Deus, venceu as cruezas e perversidades da carne.

“Tanto pode o benefício da
Graça e da saúde
Que ordene que a vida mude:
E o que por vício
Me fez grau pêra virtude;
E faz que este natural
Amor, que tanto se preza
Suba da sombra do real,
Da particular beleza
Para beleza geral.”
(Versos 241-250)

O mundo sensível, embora vasto, é limitado por nossos sentidos, nossas experiências. Nós só conhecemos o que vemos. O mundo é um conceito, uma definição de realidade de cada um. A beleza é relativa, varia de acordo com o tempo, com a pessoa, com os valores estéticos de cada época. O amor é tão suscetível quanto a beleza. Varia, muda de pessoa, de opinião, de crenças. Toda a limitação desse ser terreno é deixada à parte para viver o amor universal, não a aparência, mas a essência das coisas.

“Mas ó tua, terra de glória
Se eu nunca vi tua essência
Como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
Senão na reminiscência
Que a alma é tábua rasa.”
(Versos 201-206)

Seguindo a dicotomia de Platão: memória e reminiscência, Camões utiliza o termo reminiscência para explicar sua essência divina, filho de Deus, ao relatar filiação através da alma. Pela alma as leituras sagradas o levam a ansiar e desejar o céu, mesmo sem conhecê-lo. O céu, através da alma, se fez presente nele, na essência, na intelecção, na viagem inteligível do mundo perfeito das idéias.

“Que a alma é tábua rasa
Que com a escrita doutrina
Celeste tanto imagina
Que voa da própria casa
E sobe a pátria divina”
(Versos 206-210)

“A palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante do que uma
espada de dois gumes, e atinge até a divisão da alma com o corpo,
das juntas e medulas, e discerne os pensamentos e intenções do
coração. Nenhuma criatura lhe é invisível.”
(Carta aos hebreus – Cap.4,12)

A explicação camoniana da reminiscência é bem cristocêntrica e, como diz a escritura, a própria palavra discerne tanto o corpo quanto a alma, explicação religiosa para os sonhos da pátria celeste.
Gradativamente, os olhos do eu-lírico foram sendo desviados do horizonte para o céu, o espaço vertical. A passagem do mundo sensível para o mundo inteligível se ratifica quando o eu-lírico se torna capaz de renunciar suas paixões, seus amores. Se, libidinosamente, a “carne” tirou o homem do paraíso, a renúncia dela o leva novamente ao Eldorado.

“E aquela humana figura
Que cá me pôde alterar,
Não é quem s’há de buscar
É raio de formosura
Que só se sabe amar.
(Versos

Com a sublimação dos ideais, os conflitos, dor e tristeza vão cedendo lugar aos frutos bons da volta ao reino. “Quem semeia entre lágrimas, recolherão com alegria.” (Salmo 125,5) Depois da paixão, passagem de um calvário de dores de um mundo sensível, o caminho do mundo inteligível levou o eu-lírico e, por que não, Camões. A ascensão ao mundo perfeito.



BIBLIOGRAFIA

AMARAL, Roberval Marques do. Profecias bíblicas à luz da história e da ciência.
RCC, Editora Santuário: Aparecida, SP. 2000

CLARET, Martin. Os Lusíadas. SP. 2005

FILHO, Aires da Mata Machado. Camões lírico. Editora Agir, 2ªedição: RJ. 1977

A Estilística em " Famigerado" de Guimarães Rosa

Em termos gerais, pode-se afirmar que o objeto da Estilística é a expressividade da linguagem. Para alguns teóricos, essa expressividade reside nos desvios da norma. Os desvios, por sua vez, podem dar-se por meio do uso consciente ou mesmo pelo desconhecimento do uso das normas gramaticais.

Desde o período greco-romano, havia uma certa tendência de alguns escritores aderirem a estas formas de escrever, criando certos “desvios” nas normas da língua a fim de implementar certa expressividade, valor criativo.

O fato é que os escritores, não raras vezes, utilizam de forma consciente esses desvios para dar originalidade, expressividade a seus textos. A expressividade é uma marca autoral, é a subjetividade do escritor. Esses desvios realçam e salientam um novo valor, adiciona e dar cor própria ao texto daquilo que seu produtor tenciona. Seja nas palavras ou nas expressões, seja na estilística fonológica ou sintática há sempre uma marca de originalidade que transgride o corriqueiro, o trivial e dá um caráter pitoresco e um novo sentido ao ler um texto, que marca a autoria de um dado escritor.

Por isso, o texto utilizado tem como marca principal a criação estilística. Trata-se do conto Famigerado cujo autor, Guimarães Rosa, instaura uma narrativa com a cor local do sertão, com palavras novas, com a “gramática de ouvido”. Talvez nenhum outro escritor brasileiro tenha ousado tanto estilísticamente no que tange aos “desvios” da norma.
Numa simples leitura dos textos de Guimarães Rosa é possível observar as inovações lingüísticas implementadas por ele.

“Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cava-
leiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e em-
lados, de banda, três homens a cavalo.”

Decerto, seria exaustivo listar todos os recursos estilísticos presentes no conto. Podemos, porém, elencar alguns. Equiparado, cabismeditado, desafogaréu; essas palavras estão inseridas no estudo do processo de criação neológico denominado palavras-valise. Esse processo consiste na redução de uma ou das duas bases das palavras a fim de que seus elementos constituintes se unam para formar um novo item lexical: Uma palavra perde sua parte final e outra sua parte inicial e a partir daí revela-se uma palavra-valise.

Equipado + parado = equiparado ( palavra-valise)

Outro processo existente no texto é o recurso expressivo da palavra formada por neologismo por meio do processo de prefixação. A palavra antenasal com o prefixo “ante” que quer dizer: em frente de, diante de; se junta a locução adjetiva nasal. O sentido que surge daí é “cara a cara” “frente a frente”. Era o diálogo travado entre o médico e o jagunço.


“Sobressaltado. Damazio, quem dele não ouvira? O feroz
Das estórias de léguas,com dezenas de carregadas mor-
tes. (...) Ali, antenasal, de mim a palmo!”

Logicamente, tais expressões instauram um ambiente peculiar ao tema da narrativa, evoca certo falar popular e determinados costumes de seu povo. O diálogo entre o médico e o jagunço revela o erudito e o popular caminhando na narrativa. Não raras vezes, o próprio médico absorve a linguagem coloquial e se aproxima do jagunço. O narrador é o próprio médico, (narrador-personagem), e é ele quem utiliza o termo antenasal; processo estilístico de criação de palavras com os recursos da própria língua.

As figuras de linguagem são na literatura uma forma de embelezar o texto, de experimentar maneiras novas de fazer referência a algo. Seja metáfora, metonímia, sinédoque, comparação, o escritor está sempre servindo-se delas para designar algo que, muitas vezes, apenas um item lexical não é capaz de expressar, de apontar.

“Foi de incerta feita o evento. Quem poderia esperar coisa
tão sem pés nem cabeça?”

A metáfora é uma figura de significação e consiste numa transferência de sentidos dos elementos díspares, ou seja, uma analogia entre eles, uma transmissão de características próprias de um item lexical para outro termo. Os semas de um item lexical passam a compor numa relação analógica entre as referências estabelecidas um efeito de consubstanciação dos semas.

Por isso, a expressão “coisa sem pés nem cabeça” para designar a presença do jagunço é uma metáfora. Os pés e cabeça são as duas extremidades do corpo humano. Uma coisa sem pé e sem cabeça é uma coisa sem começo e sem fim. Sem fundamento (os pés) e sem razão (a cabeça). A presença do jagunço, portanto, metaforiza-se por conotar justamente por ser algo sem fundamento, e sem razão, pois, a preposição “sem” anteposta aos vocábulos nega todas essas características. Deste modo, é sem procedência, e sem motivos lógicos a aparição de uma tropa de cavaleiros à sua janela.

Outra metáfora que podemos citar:

Damazio, quem dele não ouvira? O feroz
Das estórias de léguas,com dezenas de carregadas mor-
tes. (...)

Dizer algo sobre estórias de léguas é o mesmo que dizer grandes estórias; estórias que vão longe, estórias conhecidíssimas pelas redondezas. Há uma transferência de sentido do substantivo “estórias” que são Ca(u)sos ou fatos contados, para o substantivo “léguas” unidade de medida. Guimarães parece querer, por meio dessa metáfora, mensurar a ferocidade do jagunço pela distância que essas estórias percorrem. Essa figura de linguagem esta adaptada ao campo semântico do sertão e a linguagem daquele povo.

As figuras de linguagem são sempre utilizadas tanto na fala quanto na escrita. A diferença é que muitas caíram no uso e tornaram-se mortas, tomadas quase que como linguagem denotativa. Os romancistas e os poetas são os guardiões das criações expressivas, de uma linguagem sempre inovadora que transgride o senso comum. As metáforas, metonímias, eufemismos, comparações são a linguagem em seu uso conotativo, aproximativo, plena de inventividade, porque em muitas situações é impossível descrever algo se não for com esses recursos.

Há algo que não podemos desvincular desse processo estilístico que é a questão do sentido e do significado. O sentido está para a Pragmática assim como o significado esta para a Semântica. A Pragmática estuda a linguagem em uso, nas suas relações intersociais, no processo comunicativo. A Semântica estuda o significado das palavras, do léxico de uma língua.

Por isso quando analisamos textos de escritores e observamos criação, invenção e produtividade na língua, como na criação dos neologismos do “Guima” observamos que o processo segue determinadas organizações lingüísticas. Guimarães Rosa não age de forma inconsequente ou involuntária, ele faz de forma consciente do efeito que pretende produzir.

Queremos nos atentar para o fato de muitas dessas palavras não estão dicionarizadas, mas fazem parte de uma criação da língua. Mesmo que elas não tenham um significado dicionarizado, no texto elas possuem sentidos latentes que é parte do fazer literário do escritor e que nos aproximam de uma compreensão efetiva da construção de sentido da obra. Guimarães produziu os mais expressivos neovocábulos aproveitando a fala do povo simples, do coloquial que ajudam na compreensão da vida e dos costumes daquele povo sertanejo.

Em estado de dicionário, a palavra mantém seus semas, seu significado; algo convencionado que vincula tal palavra a uma outra com conceito semelhante, com certa proximidade de significado. No entanto, quando essa palavra assume função numa frase ou num texto, ela não somente pode evocar a esses significados como também pode adquirir outro sentido em relações estabelecidas no contexto linguístico e social. Tomemos como exemplo a frase:

“Tomei-me nos nervos”

O verbo “tomar” nesse caso não é sinônimo de ‘beber”, “ingerir”, nem o substantivo “nervos” quer dizer uma parte do corpo. “Tomar” nesse caso é o mesmo que “ficar” e “nervos”; nervoso, tenso, com medo. Num texto o leitor precisa sempre se aprofundar numa leitura vertical e não só na horizontal. Vertical no sentido de aprofundar a leitura, sair do nível de língua, área da semântica das palavras e se embrenhar no discurso, campo da Pragmática que atua levando em conta o social a comunicação. Num texto, não podemos somente ficar no nível da língua, faz-se necessário compreender o sentido que as palavras adquirem no seu uso.

Hjelmslev diz que a linguagem é o título de nobreza da humanidade. E por tal capacidade para com a linguagem, compreendemos o fato de o homem agir sobre a língua, criar e recriar palavras e expressões pela língua possibilitar múltiplas formas de produção: prefixos, afixos, desinências e outros procedimentos. É se valendo desse caráter produtivo da língua que Guimarães Rosa inova em sua narrativa e cria seus “famigerados” neologismos, no bom sentido da expressão.
Resumo do trabalho de Pesuisa sobre Língua Portuguesa/Estilística