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domingo, 20 de maio de 2012

Resenha: O Novo Acordo Ortográfico: uma visão crítica




André Marques da Silva UFF

    No Artigo, intitulado O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990) princípios e aplicações, publicado na revista Estudos de linguística galega, 2010, pág. 235-245, vol.2, a professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Isabel Almeida Santos elabora um acurado estudo que apresenta pontos técnicos sobre a regulamentação da Nova Ortografia, proposta aos países de língua portuguesa com fins de unificação e simplificação.
Este artigo se endereça a professores e a estudantes de letras, bem como a estudiosos de áreas diversas que pretendem compreender de forma clara e objetiva o Acordo Ortográfico e suas implicações linguísticas e históricas.
     Dividido em itens, o artigo traz a luz, além do panorama geral do Acordo de 1990, as questões das consoantes mudas, a consideração do critério etimológico e fonético e uma abordagem nas regras de acentuação.
     A elaboração do artigo enleva a discussão sobre a (in)consistência e (in)coerência nas proposições de algumas das alterações gráficas propostas no Acordo de 1990 e o posicionamento de Portugal em relação a não representação dos grafemas etimológicos em sequências consonantais; ponto de entrave na consecução do Acordo. Além disso, explicita a dubiedade em pontos relevantes como permissão de dupla grafia de alguns vocábulos; legitimação da representação fonética sobre a representação etimológica, ascensão de uma norma padrão em cada língua; além de promover interferências na configuração fonético-fonológicas do código escrito de um grupo de palavras, alterando a identidade gráfica e fônica desses vocábulos, distanciando-os de seus usuários.
     A autora do artigo aponta para o caráter eminente da escrita, reconhecendo-a como importante no processo de afirmação do idioma, além de ser um estabilizador da língua, por ser a escrita uma forma de registro do idioma. Um ponto relevante é a afirmação de que a regulamentação gráfica, ortografia, em que época ocorrer, está consubstanciado a dois objetivos: o de emancipar e dignificar o idioma e de promover sua estabilização. Ademais, ratifica, a unificação constitui-se como um modo de preservar a língua.
      A autora compara as propostas do Acordo de 1990 e 1945; demarcando as controvérsias de ambos, pontuando as alterações sugeridas e as regras sistematizadas a serem implantadas no plano da escrita.
      Em linhas gerais, o artigo serve de texto base para pesquisas sobre o Acordo Ortográfico; sua consistência distingui-o de outras obras que se tem observado; revela-se uma obra crítica, de consulta aconselhável a quem pretende se aprofundar no assunto.

sábado, 17 de setembro de 2011

Crônica: A escola e a educação




         Certa vez, ao passar por uma rua repleta de escolas, vi uma frase que me chamou a atenção: “há escolas que são gaiolas e escolas que são asas”. Essa frase poética ressoou em meus sentidos durante todo o dia. Desde cedo, ouvia dos mais velhos que a escola era um lugar para a gente crescer, ser alguém na vida. É o que quase todos ouvimos quando criança. E, meus pensamentos foram conduzidos à minha infância de tal forma que pude reviver até os mais belos e pitorescos eventos pueris. Eu gostava da escola, talvez por isso, não faltava nunca; sol, chuva estava eu lá, disposto a estudar, e não gostava mesmo quando algum professor faltava. Eu preferia a escola à minha casa; a escola era um lar, minha segunda casa, diziam meus pais. Hoje porém, a coisa parece ter mudado bastante.


          Decerto, a escola não é um lar propriamente dito, mas convenhamos, também não é um presídio onde os alunos cumprem, em regime semi-aberto, sua obrigação escolar, podendo voltar ao fim do turno para o âmbito familiar. Escola é outra coisa.

        Um fato que observei neste dia, chamara-me a atenção. Os alunos sentiam mais prazer ao sair do que ao entrar na escola. Então, por que motivo dizia-se que existem “escolas que são asas”. A metáfora, neste caso, parecia incongruente, um engodo pedagógico que reforça um discurso pseudo-ideal. A meu ver, uma escola “asas” interage com os alunos; é aquela que dá direitos e deveres, promove noções de cidadania, inclusão social, cultural e reflexão sobre si e sobre o mundo que o cerca. A escola que dá asas não tem por meta endurecer as regras, e se o faz, far-se-á sem perder a ternura; educando sem perder o amor e o respeito, garantindo igualdade entre os diferentes e qualidade no trato do ensino.
          A escola gaiola reproduz um sistema cruel e desumano; não promove o saber como forma de emancipação. Preocupa-se mais com assuntos burocráticos do que com ensino-aprendizagem. Torna-se um cárcere público em regime semi-aberto; promove mais a disciplina do que a educação, do que a inclusão social. Aliás, disciplina sem a educação é uma ditadura velada, que nada acrescenta. Um aluno não terá bom comportamento por medo de ser punido, terá um bom comportamento porque saber como e porque se comportar são atitudes intrinsecamente ligadas à prática da educação, da cidadania tão caras as Leis de Diretrizes e Bases da Educação.
          Em se falando em lei, o Brasil é mestre em fazer leis quando o objetivo é não as cumprir. Que resposta temos a dar sobre a atual situação da educação do Brasil? Por ora, ineficiente no que tange à formação escolar; as escolas sucateadas, pouco investimento, salários ruins. A escola, para mim, deve ser reinventada, e o conceito de educação deve ser rediscutido.

          Quando penso em educação, geralmente tento fugir do binômio escola/ ensino, para não delimitar a educação num espaço apenas físico, entre os muros de uma escola. Educação é a algo que ocorre entre pessoas e sociedade. Tanto pode ser de dentro para fora (educere) quanto de fora para dentro. São intercâmbios constantes de saberes, de cultura, de conhecimentos, sobretudo, de modos de desenvolvimento do ser humano.

          No Brasil, o nosso governo credita a educação em giz, lousa e merenda. A a culpa pela ineficiência do ensino é sempre relativizada: o professor culpa o Estado e os alunos, o aluno culpa o professor, o Estado culpa os professores, e a sociedade culpa o sistema. Cria-se um círculo vicioso sem resolução nenhuma. Enquanto isso, como tem-se conhecimento, a educação jaz em péssimos resultados, despontando nas últimas posições em avaliações internacionais. Que país é esse? É o país do futebol, é o país do carnaval, das praias.

        A educação pode ocorrer em espaços não institucionalizados.`Pode ser mais do que o conceito de ensino em unidades escolares. Educação é amplo e contínuo processo que se inicia ao nascer e só termina ao fim da vida. A escola é só uma das instâncias, é uma das asas de que se serve a Educação. 


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Ler o mundo (Affonso Romano)


Tudo é leitura. Tudo é decifração. Ou não. Ou não porque nem sempre deciframos os sinais à nossa frente. Ainda agora os jornais estão repetindo, a propósito das recentes eleições, “que é preciso entender o recado das urnas”. Ou seja: as urnas falam, emitem mensagens. O sambista dizia que “as rosas não falam, as rosas apenas exalam o perfume que roubam de ti”. Perfumes falam.

Paixão de ler. Ler a paixão. Como ler a paixão se a paixão é quem nos lê? Sim, a paixão é quando nossos inconscientes pergaminhos sofrem um desletrado terremoto. Na paixão somos lidos à nossa revelia. O corpo é um texto. Há que saber interpretá-lo. Alguns corpos, no entanto, vêm em forma de hieróglifo, dificílimos. Ou a incompetência é nossa, iletrados diante deles? Movido pelo amor, pela paixão, pode o corpo falar idiomas que antes desconhecia.

Portanto, não é só quem lê um livro que lê. Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. Fazer um jardim é reler o mundo, reordenar o texto natural. E quando os jardineiros barrocos instalavam assombrosas grutas e jorros d’água entre seus canteiros estavam saudando as elipses do mistério nos extremos que são a pedra e a água, o movimento e a eternidade.
Tudo é texto. Tudo é narração.
Um desfile de carnaval, por exemplo. Por isto se fala de “samba-enredo”. Enredo além da história pátria referida. A disposição das alas, as fantasias, a bateria, a comissão de frente são formas narrativas.
Uma partida de futebol é uma forma narrativa. Saber ler uma partida – este é o mérito do locutor esportivo, na verdade, um leitor esportivo. Ele, como o técnico, vê coisa no texto em jogo, que só depois de lidas por ele por nós são percebidas. Ler, então, é um jogo. Uma disputa, uma conquista de significados entre o texto e o leitor.
Paulinho da Viola dizia: “As coisas estão no mundo, eu é que preciso aprender”. Um arqueólogo lê nas ruínas a história antiga. O astrônomo lê a epopéia das estrelas. Ora, direis, ouvir & ler estrelas. Que histórias sublimes, suculentas, na Via Láctea.
Aparentemente ler jornal é coisa simples. Não é. A forma como o jornal é feito, a diagramação, a escolha dos títulos, das fotos e ilustrações são já um discurso.
Estamos com vários problemas de leitura hoje. Construímos sofisticadíssimos aparelhos que sabem ler. Eles nos lêem. Nos lêem melhor que nós mesmos. E mais: nós é que não os sabemos ler. Situação paradoxal: não sabemos ler os aparelhos que nos lêem. Analfabetismo tecnológico.
A gente vive falando mal do analfabeto. Mas o analfabeto também lê o mundo. Às vezes, sabiamente. Em nossa arrogância o desclassificamos. E penso que analfabeto é apenas aquele que a sociedade letrada refugou. De resto, hoje na sociedade eletrônica, quem não é de algum modo analfabeto?
É preciso ler, interpretar e fazer alguma coisa com a interpretação. Feiticeiros e profetas liam mensagens nas vísceras dos animais sacrificados e paredes dos palácios. Cartomantes lêem no baralho, copo d’ água, búzios. Tudo é leitura. Tudo é decifração. Ler é uma forma de escrever com mão alheia.
Minha vida daria um romance? Daria, se bem contada. Mas bem escrevê-lo são artes da narração. Mas só escreve bem quem, ao escrever sobre si mesmo, lê o mundo também.

Fichamento do livro: Manual de Linguística; cap. 1



A linguagem é uma capacidade ou faculdade mental que todos os seres humanos- e apenas seres humanos- possuem. Ela é a mesma nos cerca de seis bilhões de indivíduos da espécie humana.

Essa capacidade pode ser considerada um órgão da mente, que nos permite adquirir e usar diferentes línguas.
Dizer que essa capacidade é inata significa que não a aprendemos no curso de nossa experiência de vida, mas já nascemos com ela. Essa competência está em nossa mente e não em um animal, num macaco por exemplo. O macaco ou o papagaio, por mais espertos que sejam não têm essa capacidade em sua mente.

Esse conhecimento tão complexo é parte de nossa biologia. Se não nascêssemos com ele, não haveria meio de aprendê-lo só através da observação das coisas. Se a linguagem fosse aprendida apenas como em um jogo de repetição, só seríamos capazes de falar apenas o que ouvimos. De fato, quando falamos demonstramos saber muito mais do que aquilo que ouvimos.

Essa propriedade de nossa capacidade de linguagem é conhecida pelos linguistas como infinitude discreta, ou seja, somos capazes de produzir um número infinito de expressões gramaticais, a partir de um conjunto finito de elementos e princípios linguísticos. É assim que ocorre com os sons da língua, com vinte ou trinta sons podemos produzir quantas palavras? Não dá nem para contar porque não tem fim.
Duas correntes surgem nesse período, o comportamentalismo de Skinner e cognitivismo de Chomsky. Skinner achava que o fenômeno da linguagem humana podia ser explicado “de fora pra dentro”, isto é, a criança receberia os estímulos linguísticos do ambiente e, então, reproduziria suas respostas verbais. Chomsky demonstrou que só os estímulos ambientais não seriam suficientes, seriam pobres comparados a complexidade do sistema verbal exibido por uma criança.

Chomsky aponta duas questões filosóficas sobre a cognição humana: o problema de Platão e o problema de Orwell. O problema de Platão é exatamente o problema da pobreza de estímulos; como podemos saber tanto com tão poucas evidências? A resposta seria a que já nascemos sabendo. O outro problema, o de Orwell teria a pergunta: “como podemos saber tão pouco se temos tantas evidências?” Chomsky vai dizer que apesar de muitos meios externos de comunicação ainda somos manipulados e por isso acreditamos em certos pontos de vista em detrimento de outros.

O fato de nascermos sabendo, fornece a resposta ao problema de Platão, nascemos com princípios gerais para adquirir uma língua e isso ajuda a organizar os estímulos verbais deficientes.Esse processe se dá de maneira bem homogênea para todas as crianças, independente do meio que sejam criadas.
Esse processo natural e espontâneo é que se chama de aquisição da linguagem, devendo ser diferenciado do termo aprendizagem. A aquisição é o que ocorre a criança exposta a estímulos, a aprendizagem depende do esforço exercido, da prática. A aquisição da linguagem é, de fato, um processo universal, é a sua homogeneidade na espécie humana.

A competência é o saber lingüístico abstrato que temos em nossa mente, esse saber ou competência lingüística é acessado toda vez que precisamos produzir ou compreender frases. O uso desse saber numa situação de fala específica é que constitui o desempenho. Assim, pode-se dizer que competência é o saber e o desempenho é o fazer.

Esse saber fazer compõe regras de encaixe da gramática universal da linguagem que são inatas, uma capacidade humana, comum a todas as línguas humanas.

Observa-se que tal gramática não se assemelha a noção de norma gramatical. Essa gramática normativa impõe regras com a finalidade de controle social. A gramática normativa afasta-se, portanto, da gramática intuitiva do falante, que adestrado em suas regras, não reconhece como competência natural.

As normas são variáveis e o que é considerado “certo” hoje, poderá não selo amanhã, assim, como muita coisa que já foi vista como “certa” ontem, já não o é mais hoje em dia. Oliveira Lima sugere que o caminho alternativo é a educação pela inteligência. Ao invés de despejar conteúdos ultrapassados, o professor de línguas pode provocar o raciocínio e a imaginação e a capacidade resolver problemas.

A noção de certo e errado é o que gera preconceito lingüístico, difundindo a idéia de que há língua superior e língua primitiva. A gramática descritiva visa estudar e descrever os fenômenos lingüísticos sem estabelecer julgamentos de valor. Além disso, faz uma reflexão analítica que procura compreender os fenômenos de modo objetivo.

A gramática de uma língua é, portanto, um mecanismo mental que permite juntar o conhecimento dos sons com os conceitos e idéias, construindo palavras e frases.

O lingüista Roman Jakobson propôs um esquema que sistematizou elementos constitutivos de todo ato de comunicação verbal, argumentando que ênfase em cada um desses elementos caracteriza uma função linguística.

A função expressiva emotiva centra-se no destinador ou emissor, a apelativa centra-se no destinatário, no receptor; a função referencial centra-se no referente, no contexto, de base denotativa, factual; a função fática centra-se no canal, ou contato físico ou psicológico; a função metalingüística centra-se no código, tem por finalidade verificar se o código permite a comunicação; a função poética, por fim, centra-se na mensagem, nas propriedades estéticas, nos ritmos enfim.






Novo Acordo Ortográfico: uma motivação linguística ou política?


                                                                                                                                   André Marques UFF

O Novo Acordo Ortográfico, embora só atualmente tenha se tornado objeto de discussão, foi aprovado em 1990, pela Academia de Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e Delegações de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Esse acordo teria ou tem como objetivo manter a unidade essencial da Língua Portuguesa, além de dar-lhe prestígio internacional.


Não há dúvida de que os que buscam refletir sobre a importância ou não do Acordo vão de encontro a dois pontos específicos: um fundamentado nas intenções políticas do Acordo, outro fundamentado na teorização linguística. Um e outro ponto são pertinentes para a análise dos objetivos desse Acordo, sobretudo, porque língua e política estão intrinsecamente ligadas por sujeitos historicamente determinados, com papéis sociais definidos e definidores.

Isto posto, dir-se-á que este Acordo Ortográfico tem estratégias tanto linguísticas quanto políticas, pois a linguagem e a política são elementares à constituição do homem. Há que se considerar, porém, que as mudanças ocorridas no sistema linguístico não afetam fundamentalmente às prescrições gramaticais que já tínhamos. Sai o trema, mudam-se algumas regras no processo de formação de palavras, são abolidos alguns acentos enfim, nada que trouxesse efetivas mudanças ou dificuldades ao uso cotidiano de nossa sintaxe, morfologia ou semântica.

Observa-se também que politicamente o Acordo não produziu o efeito tão esperado. Portugal hesitou, postergou e protelou sem cerimônia a aceitação da implementação em 2009, ano de implantação nos países de língua portuguesa. Não se sabe se esse Acordo fundamentará, de fato, a unidade linguística dos países lusófonos, mas se pode afirmar que um passo “político-linguístico” para esse sentido foi dado.

Tem-se, então, desde 2009 um acordo que visa a uma unidade do sistema ortográfico, prescrições que virtualmente garantem que o português do continente europeu, sul-americano e africano tenham diretrizes em comum, o que contribuiria para uma unidade linguística do sistema, diacronicamente.

Não se pode negar, porém, que há um jogo político subjacente a esse Acordo que faz com que a promoção da Língua seja a promoção do país e de sua cultura para o mundo. Fato é que nestes casos, o que se quer mostrar, de fato, é mais a potência econômica e comercial do país do que sua potência linguística. Alguns teóricos da ciência da linguagem defendem que a hegemonia e o prestígio de uma língua estão mais estritamente ligados ao poder econômico desse país do que do ao número de falantes, fosse assim, a língua dos chineses teria mais prestígio que qualquer outra.

Outro fator a se considerado é que nem o prestígio cultural, filosófico ou literário, enfim, tido por um país em determinada época é capaz de, na Pós-Modernidade, ser fator preponderante para uma manutenção de sua hegemonia línguística. Línguas como o grego, latim italiano, francês tiveram apogeu em épocas distintas porque promoviam um modelo social, literário, estético, ideológico etc. e foram sobrepujadas pelo atual prestígio econômico que o inglês enleva.

Portando, acredita-se que este Novo Acordo Ortográfico será capaz tanto de reafirmar a unidade da língua portuguesa como um sistema transcontinental quanto de promovê-la na comunidade internacional. Não se pode afirmar que essas duas finalidades tiveram êxito ou fracassaram, é cedo ainda. Mas pode-se dizer que este Acordo tem estas duas finalidades: política e linguística um e outra aparecerão de forma mais intensa, dependendo do discurso empregado para promover o Acordo.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

A crônica, por mim mesmo: um breve ensaio


Numa roda de letrados... Meus caros censores que me perdoem, julgo que cada cronista possui uma definição própria, bem subjetiva do gênero, baseada, sobretudo, nas leituras que já realizou. Quem já não se perguntou se o que lia era realmente crônica ou mesmo hesitou se o que escrevia pertencia mesmo aquele gênero. A meu ver, é gênero crônica o que o escritor assinala como crônica. Se causa estranhamento, se destoa ou não de conceitos delimitadores é porque o próprio gênero é multifacetado, tem em sua geografia tênues fronteiras, podendo vez ou outra o cronista visitar mais de um destino. Com a pena à mão, as distâncias se encurtam, é possível ir e voltar nas tramas e roteiros engendrados pela linguagem.


A crônica a meu ver é um laboratório onde se criam todos os tipos de experimentos com a linguagem, com temas, recursos expressivos, estilísticos e retóricos. Seja numa linguagem mais coloquial, seja numa linguagem formal, é o cronista que pincela com tons e cores próprios a matéria prima de que se serve para o labor da escrita. Não raro, envereda-se pelas searas do lirismo poético, pelas facetas da política, pelo jornalismo crítico ou esportivo ou pelo engenhoso e expressivo ensaio.


Obra cultural ligada ao tempo, produto de uma mente engenhosa, espaço imanente da subjetividade, esplendor da criatividade verbal. É parte indissociável da realidade, captada e transfigurada pelo modo idiossincrático que o cronista tem de pensar e ler/ver o mundo. É neste sentido que os cronistas tornamo-nos infensos aos versos drummondianos: nós cantamos este mundo caduco, e, não raro, somos os que a ele dão um pouco de sanidade. Concordamos, porém, quando o mesmo Drummond afirma ser a matéria da crônica o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. A crônica é a instância do evento, o lugar por excelência do espaço, tempo e assunto do aqui, agora.


Costumo dizer que a Crônica é uma forma de intervenção no mundo e tem como especificidade o empreendedorismo subjacente ao processo de escrita: disseca a realidade, faz um recorte geográfico do espaço, pensa a história do evento como um fato não consumado, transcende sobremaneira o real, subverte a lógica, tematiza o vil, o infame, o grotesco, o trivial, o belo; fotografa com palavras o que passa desapercebido a outrem, e o quinhão de tudo isso é que não se pode falar em crônica, mas em crônicas, carecendo, pois, de um genitivo de posse, que indique sua gênese, identifique seu escritor. Corrija-me, leitor, se tu mesmo não aplicas genitivo de posse às crônicas que lês: crônica de Sabino, crônica de Rubem Braga, de Machado, de Veríssimo,de fulano, enfim...


O ritual de iniciação de um neocronista passa, sem dúvida, pela leitura de crônicas diversas, pelo universo temático, pelas peripécias linguísticas a que um consagrado cronista submete seu texto. É como diz Guimarães Rosa: “são as águas de vários rios que matam a minha sede”. Sãs as várias leituras realizadas que vão forjando um estilo nesse leitor/cronista, forjando um fazer literário particular, que paulatinamente instaura um estilo próprio no escritor que se enleva.


E, por ser o estilo tão eminente e destacado recurso expressivo, a crônica torna-se tão diversa, tão híbrida que rejeita definições inequívocas, delimitações atemporais. O estilo é o toque particular, o jeito individual que aprimora os recursos estéticos da linguagem, a liberdade da criação virtualizante. É, por isso, anárquica, alheia a qualquer fórmula homogeneizante, pois cada cronista tem em si o germe de sua prosa contemporânea.


A crônica é um gênero libertário, possui a essência da mesma liberdade dos poemas modernistas, da dessacralização temática dos poemas de Baudelaire, dos ínvios rumos da prosa machadiana, da criatividade roseana. Traz ela em si o drama da linguagem, o ímpeto tempestuoso do escritor romântico que se debruça disposto a arrancar de si a verve literária. Dou-te, leitor, a chance de rivalizar em crônica, de sabatinar-me, de engendrar-me tuas hipóteses nas linhas desse gênero ou calar-te. Pois assim, dou-lhe a saber que posso estabelecer diálogo com aquele que julga compreender minha escrita.


Se da tradição da salvaguarda do passado histórico, herdamos o apreço pelos grandes acontecimentos, pelos fatos extraordinários de um povo, trazemos, pois, para a crônica contemporânea o corriqueiro, o trivial, a tradição cotidiana, retalhos da vida moderna costurada fio a fio no tecido da linguagem.


Da notícia jornalistica à crítica pessoal a um sistema, governo ou pessoa; ao estilo lírico poético, ensaístico, a crônica serve de ferramenta cuja função mor depende do estilo do cronista, do afetamento que pretende produzir em seu público leitor.



Autor: André Marques

Resenha: O que é a Educação


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 28o ed., 1993.


Síntese de ideias


Ninguém escapa a educação. Esse é primeiro enunciado de Brandão que visa uma reflexão sobre o tema que se discutirá em toda obra. Brandão não aponta um único modelo de educação, nem aponta um local exato de como e onde se aprende, bem como qual seja mais eficiente ou mais desenvolvida. Segundo o autor, em casa, na rua, na igreja ou na escola, estamos sempre envolvidos com ela: para aprender, ensinar, aprender e ensinar.


O exemplo usado é de uma carta de um representante indígena que pontua diferenças entre a educação indígena e a educação do homem branco. Certamente, o modelo de educação representa a base do grupo a que se destina. São mundos diversos a realidade de um agricultor ou camponês para um executivo, dizendo, é claro, em questões práticas.


Para Brandão, existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo. Ela existe em cada povo ou entre povos que se encontram. A edução torna-se parte do ser humano da família à sociedade, dependendo do modelo organizacional, passa ou não pela escola.


A educação pode existir livre e, entre todos, pode se tornar uma maneira de tornar comum saber, ideias, costumes, crenças etc. Essa raiz que legitima o modelo educacional de cada esfera social e corrobora para sua aceitação prática e na ideologia de seus grupos sociais. Portanto, para Brandão, não existe uma educação e sim educações.


A educação pode existir, independentemente, da existência de uma escola. Isso não quer dizer, porém, que inexistam as redes de intercâmbio de saberes, de trocas de experiências e costumes entre uma geração e outra. Em muitas sociedades, a escola não possui esse papel de translado da educação: “a própria vida aprende e ensina a sobreviver e a evoluir em cada tipo de ser”.


Cita-se que os bichos tanto aprendem de dentro para fora, com seu instinto, tanto de fora para dentro observando a conduta de seus iguais e repetindo muitas vezes essas condutas da espécie, por conta própria.


O homem, porém, transforma , com o trabalhado e a consciência, partes da natureza em invenções de sua cultura. Nessas instâncias começa-se a delinear a estruturas mais intensas de relação entre os homens entre si e em relação ao meio. Surgem as diferenças nos padrões de cultura e na relação de poder.


Quanto mais complexas forem essas estruturas , a sociedade vai se organizando em uma educação cujos princípios norteiam uma amplitude de sua abrangência: é quando a educação passa a ser o modelo de transmissão do saber inerente a prática profissional e acesso ascendente aos valores e costumes da educação dita padrão.


No capítulo em que Brandão tenta definir um conceito de Educação, busca comparar o que pensadores pedagogos, professores pensam sobre. O objetivo é não fechar um conceito, mas entender que a educação é plural, política e embora seja individual, no sentido de recebê-la, é social porque engloba grupos sociais com objetivos e interesses claros. Educação, por seguir mais a realidade objectual do que a lei, acaba por sacramentar as disparidades de objetivos e a divisão de classes. Brandão afirma que não há igualdade no país, os brasileiros têm uma educação ideal ( que se espera ter) e uma real (a que se tem) e a educação, ao contrário do que deveria fazer, consolida a estrutura classista.


Quando se pensa a educação a partir dos conceitos derivados dos termos escola/ ensino, acaba-se por delimitar a educação num espaço apenas físico. Educação é a algo que ocorre entre pessoas e sociedade. Tanto pode ser de dentro para fora (educere) quanto de fora para dentro. São intercâmbios constantes. Se fosse a educação um processo unilateral, seríamos tábulas rasas, seres passivos, acríticos.

A educação pode ocorrer em espaços não institucionalizados.`Pode ser mais do que o conceito de ensino em unidades escolares. Educação é amplo e contínuo processo que se inicia ao nascer e só termina ao fim da vida.

Para entendermos, vejamos um excerto do livro que aponta para um modelo de educação:


As crianças devem, antes de tudo, aprender a nadar e a ler; em seguida, os pobres devem exercitar-se na agricultura ou em uma indústria qualquer, ao passo que os ricos devem se preocupar com a música e a equitação, e entregar-se à filosofia, à caça e à freqüência aos ginásios” (p.40).


Acerca dessa concepção, Xenofonte, um historiador, poeta e filósofo militar grego, criticaria quase dois séculos depois ao afirmar:

Só os que podem criar seus filhos para não fazerem nada é que os enviam à

escola; os que não podem, não enviam.” (p.40)


A concepção de educação do jovem livre caminha em direção à teoria, que é o saber do nobre para compreender e comandar, não para fazer, curar ou construir. Desse modo, teríamos uma educação para o nobre, cidadão e outra para os demais gregos.


A tecne é desenvolvida de maneira simples e direta, na oficina e no trabalho, através do convívio com algum velho artífice. Estas divisões de classes produziram diferenças curiosas entre os tipos de educadores da Grécia antiga. De um lado, desprezíveis mestres-escola e artesões professores; de outro, escravos pedagogos e educadores nobres, ou de nobres. De um lado a prática de instruir para o trabalho; de outro, a de educar para a vida e o poder que determina a vida social.


A obra de arte da paidéia é a pessoa plenamente madura como cidadã, como militar ou como político, posta a serviço dos interesses da cidade-comunidade. Assim, o ideal da educação é reproduzir uma ordem social idealmente concebida como perfeita e necessária, através da transmissão, de geração a geração, valores e habilidades que tornavam um homem tão mais perfeito quanto mais preparado para viver a cidade a que servia.


Com o passar do tempo a educação clássica deixa de ser um assunto privado, passando a ser uma questão de interesse de estado (pública). Por volta do VI século a.C., Aristóteles “exige do imperador leis que regulem direitos e controlem o exercício da educação. Com o tempo, o modelo de educação grega se expande e se torna exemplo para o mundo.


O princípio que orientou toda a educação clássica dos gregos foi sempre entendido como um “processo pelo qual a cultura da cidade é incorporada à pessoa do cidadão. Uma trajetória de amadurecimento e formação (como a obra de arte que aos poucos se modela), cujo produto final é o adulto educado, um sujeito perfeito segundo um modelo idealizado de homem livre e sábio, mas ainda sempre aperfeiçoável. Assim, a educação grega não é dirigida à criança no sentido cada vez mais dado a ela hoje em dia. De algum modo, é uma educação contra a criança, que não leva em conta o que ela é, mas olha para o modelo do que pode ser, e que anseia torná-la depressa o jovem perfeito (o guerreiro, o atleta, o artista de seu próprio corpo-e-mente) e o adulto educado (o cidadão político a serviço da polis)” (p. 46-47).