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sábado, 17 de setembro de 2011

Crônica: A escola e a educação




         Certa vez, ao passar por uma rua repleta de escolas, vi uma frase que me chamou a atenção: “há escolas que são gaiolas e escolas que são asas”. Essa frase poética ressoou em meus sentidos durante todo o dia. Desde cedo, ouvia dos mais velhos que a escola era um lugar para a gente crescer, ser alguém na vida. É o que quase todos ouvimos quando criança. E, meus pensamentos foram conduzidos à minha infância de tal forma que pude reviver até os mais belos e pitorescos eventos pueris. Eu gostava da escola, talvez por isso, não faltava nunca; sol, chuva estava eu lá, disposto a estudar, e não gostava mesmo quando algum professor faltava. Eu preferia a escola à minha casa; a escola era um lar, minha segunda casa, diziam meus pais. Hoje porém, a coisa parece ter mudado bastante.


          Decerto, a escola não é um lar propriamente dito, mas convenhamos, também não é um presídio onde os alunos cumprem, em regime semi-aberto, sua obrigação escolar, podendo voltar ao fim do turno para o âmbito familiar. Escola é outra coisa.

        Um fato que observei neste dia, chamara-me a atenção. Os alunos sentiam mais prazer ao sair do que ao entrar na escola. Então, por que motivo dizia-se que existem “escolas que são asas”. A metáfora, neste caso, parecia incongruente, um engodo pedagógico que reforça um discurso pseudo-ideal. A meu ver, uma escola “asas” interage com os alunos; é aquela que dá direitos e deveres, promove noções de cidadania, inclusão social, cultural e reflexão sobre si e sobre o mundo que o cerca. A escola que dá asas não tem por meta endurecer as regras, e se o faz, far-se-á sem perder a ternura; educando sem perder o amor e o respeito, garantindo igualdade entre os diferentes e qualidade no trato do ensino.
          A escola gaiola reproduz um sistema cruel e desumano; não promove o saber como forma de emancipação. Preocupa-se mais com assuntos burocráticos do que com ensino-aprendizagem. Torna-se um cárcere público em regime semi-aberto; promove mais a disciplina do que a educação, do que a inclusão social. Aliás, disciplina sem a educação é uma ditadura velada, que nada acrescenta. Um aluno não terá bom comportamento por medo de ser punido, terá um bom comportamento porque saber como e porque se comportar são atitudes intrinsecamente ligadas à prática da educação, da cidadania tão caras as Leis de Diretrizes e Bases da Educação.
          Em se falando em lei, o Brasil é mestre em fazer leis quando o objetivo é não as cumprir. Que resposta temos a dar sobre a atual situação da educação do Brasil? Por ora, ineficiente no que tange à formação escolar; as escolas sucateadas, pouco investimento, salários ruins. A escola, para mim, deve ser reinventada, e o conceito de educação deve ser rediscutido.

          Quando penso em educação, geralmente tento fugir do binômio escola/ ensino, para não delimitar a educação num espaço apenas físico, entre os muros de uma escola. Educação é a algo que ocorre entre pessoas e sociedade. Tanto pode ser de dentro para fora (educere) quanto de fora para dentro. São intercâmbios constantes de saberes, de cultura, de conhecimentos, sobretudo, de modos de desenvolvimento do ser humano.

          No Brasil, o nosso governo credita a educação em giz, lousa e merenda. A a culpa pela ineficiência do ensino é sempre relativizada: o professor culpa o Estado e os alunos, o aluno culpa o professor, o Estado culpa os professores, e a sociedade culpa o sistema. Cria-se um círculo vicioso sem resolução nenhuma. Enquanto isso, como tem-se conhecimento, a educação jaz em péssimos resultados, despontando nas últimas posições em avaliações internacionais. Que país é esse? É o país do futebol, é o país do carnaval, das praias.

        A educação pode ocorrer em espaços não institucionalizados.`Pode ser mais do que o conceito de ensino em unidades escolares. Educação é amplo e contínuo processo que se inicia ao nascer e só termina ao fim da vida. A escola é só uma das instâncias, é uma das asas de que se serve a Educação. 


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Fichamento do livro: Manual de Linguística; cap. 1



A linguagem é uma capacidade ou faculdade mental que todos os seres humanos- e apenas seres humanos- possuem. Ela é a mesma nos cerca de seis bilhões de indivíduos da espécie humana.

Essa capacidade pode ser considerada um órgão da mente, que nos permite adquirir e usar diferentes línguas.
Dizer que essa capacidade é inata significa que não a aprendemos no curso de nossa experiência de vida, mas já nascemos com ela. Essa competência está em nossa mente e não em um animal, num macaco por exemplo. O macaco ou o papagaio, por mais espertos que sejam não têm essa capacidade em sua mente.

Esse conhecimento tão complexo é parte de nossa biologia. Se não nascêssemos com ele, não haveria meio de aprendê-lo só através da observação das coisas. Se a linguagem fosse aprendida apenas como em um jogo de repetição, só seríamos capazes de falar apenas o que ouvimos. De fato, quando falamos demonstramos saber muito mais do que aquilo que ouvimos.

Essa propriedade de nossa capacidade de linguagem é conhecida pelos linguistas como infinitude discreta, ou seja, somos capazes de produzir um número infinito de expressões gramaticais, a partir de um conjunto finito de elementos e princípios linguísticos. É assim que ocorre com os sons da língua, com vinte ou trinta sons podemos produzir quantas palavras? Não dá nem para contar porque não tem fim.
Duas correntes surgem nesse período, o comportamentalismo de Skinner e cognitivismo de Chomsky. Skinner achava que o fenômeno da linguagem humana podia ser explicado “de fora pra dentro”, isto é, a criança receberia os estímulos linguísticos do ambiente e, então, reproduziria suas respostas verbais. Chomsky demonstrou que só os estímulos ambientais não seriam suficientes, seriam pobres comparados a complexidade do sistema verbal exibido por uma criança.

Chomsky aponta duas questões filosóficas sobre a cognição humana: o problema de Platão e o problema de Orwell. O problema de Platão é exatamente o problema da pobreza de estímulos; como podemos saber tanto com tão poucas evidências? A resposta seria a que já nascemos sabendo. O outro problema, o de Orwell teria a pergunta: “como podemos saber tão pouco se temos tantas evidências?” Chomsky vai dizer que apesar de muitos meios externos de comunicação ainda somos manipulados e por isso acreditamos em certos pontos de vista em detrimento de outros.

O fato de nascermos sabendo, fornece a resposta ao problema de Platão, nascemos com princípios gerais para adquirir uma língua e isso ajuda a organizar os estímulos verbais deficientes.Esse processe se dá de maneira bem homogênea para todas as crianças, independente do meio que sejam criadas.
Esse processo natural e espontâneo é que se chama de aquisição da linguagem, devendo ser diferenciado do termo aprendizagem. A aquisição é o que ocorre a criança exposta a estímulos, a aprendizagem depende do esforço exercido, da prática. A aquisição da linguagem é, de fato, um processo universal, é a sua homogeneidade na espécie humana.

A competência é o saber lingüístico abstrato que temos em nossa mente, esse saber ou competência lingüística é acessado toda vez que precisamos produzir ou compreender frases. O uso desse saber numa situação de fala específica é que constitui o desempenho. Assim, pode-se dizer que competência é o saber e o desempenho é o fazer.

Esse saber fazer compõe regras de encaixe da gramática universal da linguagem que são inatas, uma capacidade humana, comum a todas as línguas humanas.

Observa-se que tal gramática não se assemelha a noção de norma gramatical. Essa gramática normativa impõe regras com a finalidade de controle social. A gramática normativa afasta-se, portanto, da gramática intuitiva do falante, que adestrado em suas regras, não reconhece como competência natural.

As normas são variáveis e o que é considerado “certo” hoje, poderá não selo amanhã, assim, como muita coisa que já foi vista como “certa” ontem, já não o é mais hoje em dia. Oliveira Lima sugere que o caminho alternativo é a educação pela inteligência. Ao invés de despejar conteúdos ultrapassados, o professor de línguas pode provocar o raciocínio e a imaginação e a capacidade resolver problemas.

A noção de certo e errado é o que gera preconceito lingüístico, difundindo a idéia de que há língua superior e língua primitiva. A gramática descritiva visa estudar e descrever os fenômenos lingüísticos sem estabelecer julgamentos de valor. Além disso, faz uma reflexão analítica que procura compreender os fenômenos de modo objetivo.

A gramática de uma língua é, portanto, um mecanismo mental que permite juntar o conhecimento dos sons com os conceitos e idéias, construindo palavras e frases.

O lingüista Roman Jakobson propôs um esquema que sistematizou elementos constitutivos de todo ato de comunicação verbal, argumentando que ênfase em cada um desses elementos caracteriza uma função linguística.

A função expressiva emotiva centra-se no destinador ou emissor, a apelativa centra-se no destinatário, no receptor; a função referencial centra-se no referente, no contexto, de base denotativa, factual; a função fática centra-se no canal, ou contato físico ou psicológico; a função metalingüística centra-se no código, tem por finalidade verificar se o código permite a comunicação; a função poética, por fim, centra-se na mensagem, nas propriedades estéticas, nos ritmos enfim.






Novo Acordo Ortográfico: uma motivação linguística ou política?


                                                                                                                                   André Marques UFF

O Novo Acordo Ortográfico, embora só atualmente tenha se tornado objeto de discussão, foi aprovado em 1990, pela Academia de Ciências de Lisboa, Academia Brasileira de Letras e Delegações de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Esse acordo teria ou tem como objetivo manter a unidade essencial da Língua Portuguesa, além de dar-lhe prestígio internacional.


Não há dúvida de que os que buscam refletir sobre a importância ou não do Acordo vão de encontro a dois pontos específicos: um fundamentado nas intenções políticas do Acordo, outro fundamentado na teorização linguística. Um e outro ponto são pertinentes para a análise dos objetivos desse Acordo, sobretudo, porque língua e política estão intrinsecamente ligadas por sujeitos historicamente determinados, com papéis sociais definidos e definidores.

Isto posto, dir-se-á que este Acordo Ortográfico tem estratégias tanto linguísticas quanto políticas, pois a linguagem e a política são elementares à constituição do homem. Há que se considerar, porém, que as mudanças ocorridas no sistema linguístico não afetam fundamentalmente às prescrições gramaticais que já tínhamos. Sai o trema, mudam-se algumas regras no processo de formação de palavras, são abolidos alguns acentos enfim, nada que trouxesse efetivas mudanças ou dificuldades ao uso cotidiano de nossa sintaxe, morfologia ou semântica.

Observa-se também que politicamente o Acordo não produziu o efeito tão esperado. Portugal hesitou, postergou e protelou sem cerimônia a aceitação da implementação em 2009, ano de implantação nos países de língua portuguesa. Não se sabe se esse Acordo fundamentará, de fato, a unidade linguística dos países lusófonos, mas se pode afirmar que um passo “político-linguístico” para esse sentido foi dado.

Tem-se, então, desde 2009 um acordo que visa a uma unidade do sistema ortográfico, prescrições que virtualmente garantem que o português do continente europeu, sul-americano e africano tenham diretrizes em comum, o que contribuiria para uma unidade linguística do sistema, diacronicamente.

Não se pode negar, porém, que há um jogo político subjacente a esse Acordo que faz com que a promoção da Língua seja a promoção do país e de sua cultura para o mundo. Fato é que nestes casos, o que se quer mostrar, de fato, é mais a potência econômica e comercial do país do que sua potência linguística. Alguns teóricos da ciência da linguagem defendem que a hegemonia e o prestígio de uma língua estão mais estritamente ligados ao poder econômico desse país do que do ao número de falantes, fosse assim, a língua dos chineses teria mais prestígio que qualquer outra.

Outro fator a se considerado é que nem o prestígio cultural, filosófico ou literário, enfim, tido por um país em determinada época é capaz de, na Pós-Modernidade, ser fator preponderante para uma manutenção de sua hegemonia línguística. Línguas como o grego, latim italiano, francês tiveram apogeu em épocas distintas porque promoviam um modelo social, literário, estético, ideológico etc. e foram sobrepujadas pelo atual prestígio econômico que o inglês enleva.

Portando, acredita-se que este Novo Acordo Ortográfico será capaz tanto de reafirmar a unidade da língua portuguesa como um sistema transcontinental quanto de promovê-la na comunidade internacional. Não se pode afirmar que essas duas finalidades tiveram êxito ou fracassaram, é cedo ainda. Mas pode-se dizer que este Acordo tem estas duas finalidades: política e linguística um e outra aparecerão de forma mais intensa, dependendo do discurso empregado para promover o Acordo.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

A crônica, por mim mesmo: um breve ensaio


Numa roda de letrados... Meus caros censores que me perdoem, julgo que cada cronista possui uma definição própria, bem subjetiva do gênero, baseada, sobretudo, nas leituras que já realizou. Quem já não se perguntou se o que lia era realmente crônica ou mesmo hesitou se o que escrevia pertencia mesmo aquele gênero. A meu ver, é gênero crônica o que o escritor assinala como crônica. Se causa estranhamento, se destoa ou não de conceitos delimitadores é porque o próprio gênero é multifacetado, tem em sua geografia tênues fronteiras, podendo vez ou outra o cronista visitar mais de um destino. Com a pena à mão, as distâncias se encurtam, é possível ir e voltar nas tramas e roteiros engendrados pela linguagem.


A crônica a meu ver é um laboratório onde se criam todos os tipos de experimentos com a linguagem, com temas, recursos expressivos, estilísticos e retóricos. Seja numa linguagem mais coloquial, seja numa linguagem formal, é o cronista que pincela com tons e cores próprios a matéria prima de que se serve para o labor da escrita. Não raro, envereda-se pelas searas do lirismo poético, pelas facetas da política, pelo jornalismo crítico ou esportivo ou pelo engenhoso e expressivo ensaio.


Obra cultural ligada ao tempo, produto de uma mente engenhosa, espaço imanente da subjetividade, esplendor da criatividade verbal. É parte indissociável da realidade, captada e transfigurada pelo modo idiossincrático que o cronista tem de pensar e ler/ver o mundo. É neste sentido que os cronistas tornamo-nos infensos aos versos drummondianos: nós cantamos este mundo caduco, e, não raro, somos os que a ele dão um pouco de sanidade. Concordamos, porém, quando o mesmo Drummond afirma ser a matéria da crônica o tempo presente, os homens presentes, a vida presente. A crônica é a instância do evento, o lugar por excelência do espaço, tempo e assunto do aqui, agora.


Costumo dizer que a Crônica é uma forma de intervenção no mundo e tem como especificidade o empreendedorismo subjacente ao processo de escrita: disseca a realidade, faz um recorte geográfico do espaço, pensa a história do evento como um fato não consumado, transcende sobremaneira o real, subverte a lógica, tematiza o vil, o infame, o grotesco, o trivial, o belo; fotografa com palavras o que passa desapercebido a outrem, e o quinhão de tudo isso é que não se pode falar em crônica, mas em crônicas, carecendo, pois, de um genitivo de posse, que indique sua gênese, identifique seu escritor. Corrija-me, leitor, se tu mesmo não aplicas genitivo de posse às crônicas que lês: crônica de Sabino, crônica de Rubem Braga, de Machado, de Veríssimo,de fulano, enfim...


O ritual de iniciação de um neocronista passa, sem dúvida, pela leitura de crônicas diversas, pelo universo temático, pelas peripécias linguísticas a que um consagrado cronista submete seu texto. É como diz Guimarães Rosa: “são as águas de vários rios que matam a minha sede”. Sãs as várias leituras realizadas que vão forjando um estilo nesse leitor/cronista, forjando um fazer literário particular, que paulatinamente instaura um estilo próprio no escritor que se enleva.


E, por ser o estilo tão eminente e destacado recurso expressivo, a crônica torna-se tão diversa, tão híbrida que rejeita definições inequívocas, delimitações atemporais. O estilo é o toque particular, o jeito individual que aprimora os recursos estéticos da linguagem, a liberdade da criação virtualizante. É, por isso, anárquica, alheia a qualquer fórmula homogeneizante, pois cada cronista tem em si o germe de sua prosa contemporânea.


A crônica é um gênero libertário, possui a essência da mesma liberdade dos poemas modernistas, da dessacralização temática dos poemas de Baudelaire, dos ínvios rumos da prosa machadiana, da criatividade roseana. Traz ela em si o drama da linguagem, o ímpeto tempestuoso do escritor romântico que se debruça disposto a arrancar de si a verve literária. Dou-te, leitor, a chance de rivalizar em crônica, de sabatinar-me, de engendrar-me tuas hipóteses nas linhas desse gênero ou calar-te. Pois assim, dou-lhe a saber que posso estabelecer diálogo com aquele que julga compreender minha escrita.


Se da tradição da salvaguarda do passado histórico, herdamos o apreço pelos grandes acontecimentos, pelos fatos extraordinários de um povo, trazemos, pois, para a crônica contemporânea o corriqueiro, o trivial, a tradição cotidiana, retalhos da vida moderna costurada fio a fio no tecido da linguagem.


Da notícia jornalistica à crítica pessoal a um sistema, governo ou pessoa; ao estilo lírico poético, ensaístico, a crônica serve de ferramenta cuja função mor depende do estilo do cronista, do afetamento que pretende produzir em seu público leitor.



Autor: André Marques

Resenha: O que é a Educação


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 28o ed., 1993.


Síntese de ideias


Ninguém escapa a educação. Esse é primeiro enunciado de Brandão que visa uma reflexão sobre o tema que se discutirá em toda obra. Brandão não aponta um único modelo de educação, nem aponta um local exato de como e onde se aprende, bem como qual seja mais eficiente ou mais desenvolvida. Segundo o autor, em casa, na rua, na igreja ou na escola, estamos sempre envolvidos com ela: para aprender, ensinar, aprender e ensinar.


O exemplo usado é de uma carta de um representante indígena que pontua diferenças entre a educação indígena e a educação do homem branco. Certamente, o modelo de educação representa a base do grupo a que se destina. São mundos diversos a realidade de um agricultor ou camponês para um executivo, dizendo, é claro, em questões práticas.


Para Brandão, existe a educação de cada categoria de sujeitos de um povo. Ela existe em cada povo ou entre povos que se encontram. A edução torna-se parte do ser humano da família à sociedade, dependendo do modelo organizacional, passa ou não pela escola.


A educação pode existir livre e, entre todos, pode se tornar uma maneira de tornar comum saber, ideias, costumes, crenças etc. Essa raiz que legitima o modelo educacional de cada esfera social e corrobora para sua aceitação prática e na ideologia de seus grupos sociais. Portanto, para Brandão, não existe uma educação e sim educações.


A educação pode existir, independentemente, da existência de uma escola. Isso não quer dizer, porém, que inexistam as redes de intercâmbio de saberes, de trocas de experiências e costumes entre uma geração e outra. Em muitas sociedades, a escola não possui esse papel de translado da educação: “a própria vida aprende e ensina a sobreviver e a evoluir em cada tipo de ser”.


Cita-se que os bichos tanto aprendem de dentro para fora, com seu instinto, tanto de fora para dentro observando a conduta de seus iguais e repetindo muitas vezes essas condutas da espécie, por conta própria.


O homem, porém, transforma , com o trabalhado e a consciência, partes da natureza em invenções de sua cultura. Nessas instâncias começa-se a delinear a estruturas mais intensas de relação entre os homens entre si e em relação ao meio. Surgem as diferenças nos padrões de cultura e na relação de poder.


Quanto mais complexas forem essas estruturas , a sociedade vai se organizando em uma educação cujos princípios norteiam uma amplitude de sua abrangência: é quando a educação passa a ser o modelo de transmissão do saber inerente a prática profissional e acesso ascendente aos valores e costumes da educação dita padrão.


No capítulo em que Brandão tenta definir um conceito de Educação, busca comparar o que pensadores pedagogos, professores pensam sobre. O objetivo é não fechar um conceito, mas entender que a educação é plural, política e embora seja individual, no sentido de recebê-la, é social porque engloba grupos sociais com objetivos e interesses claros. Educação, por seguir mais a realidade objectual do que a lei, acaba por sacramentar as disparidades de objetivos e a divisão de classes. Brandão afirma que não há igualdade no país, os brasileiros têm uma educação ideal ( que se espera ter) e uma real (a que se tem) e a educação, ao contrário do que deveria fazer, consolida a estrutura classista.


Quando se pensa a educação a partir dos conceitos derivados dos termos escola/ ensino, acaba-se por delimitar a educação num espaço apenas físico. Educação é a algo que ocorre entre pessoas e sociedade. Tanto pode ser de dentro para fora (educere) quanto de fora para dentro. São intercâmbios constantes. Se fosse a educação um processo unilateral, seríamos tábulas rasas, seres passivos, acríticos.

A educação pode ocorrer em espaços não institucionalizados.`Pode ser mais do que o conceito de ensino em unidades escolares. Educação é amplo e contínuo processo que se inicia ao nascer e só termina ao fim da vida.

Para entendermos, vejamos um excerto do livro que aponta para um modelo de educação:


As crianças devem, antes de tudo, aprender a nadar e a ler; em seguida, os pobres devem exercitar-se na agricultura ou em uma indústria qualquer, ao passo que os ricos devem se preocupar com a música e a equitação, e entregar-se à filosofia, à caça e à freqüência aos ginásios” (p.40).


Acerca dessa concepção, Xenofonte, um historiador, poeta e filósofo militar grego, criticaria quase dois séculos depois ao afirmar:

Só os que podem criar seus filhos para não fazerem nada é que os enviam à

escola; os que não podem, não enviam.” (p.40)


A concepção de educação do jovem livre caminha em direção à teoria, que é o saber do nobre para compreender e comandar, não para fazer, curar ou construir. Desse modo, teríamos uma educação para o nobre, cidadão e outra para os demais gregos.


A tecne é desenvolvida de maneira simples e direta, na oficina e no trabalho, através do convívio com algum velho artífice. Estas divisões de classes produziram diferenças curiosas entre os tipos de educadores da Grécia antiga. De um lado, desprezíveis mestres-escola e artesões professores; de outro, escravos pedagogos e educadores nobres, ou de nobres. De um lado a prática de instruir para o trabalho; de outro, a de educar para a vida e o poder que determina a vida social.


A obra de arte da paidéia é a pessoa plenamente madura como cidadã, como militar ou como político, posta a serviço dos interesses da cidade-comunidade. Assim, o ideal da educação é reproduzir uma ordem social idealmente concebida como perfeita e necessária, através da transmissão, de geração a geração, valores e habilidades que tornavam um homem tão mais perfeito quanto mais preparado para viver a cidade a que servia.


Com o passar do tempo a educação clássica deixa de ser um assunto privado, passando a ser uma questão de interesse de estado (pública). Por volta do VI século a.C., Aristóteles “exige do imperador leis que regulem direitos e controlem o exercício da educação. Com o tempo, o modelo de educação grega se expande e se torna exemplo para o mundo.


O princípio que orientou toda a educação clássica dos gregos foi sempre entendido como um “processo pelo qual a cultura da cidade é incorporada à pessoa do cidadão. Uma trajetória de amadurecimento e formação (como a obra de arte que aos poucos se modela), cujo produto final é o adulto educado, um sujeito perfeito segundo um modelo idealizado de homem livre e sábio, mas ainda sempre aperfeiçoável. Assim, a educação grega não é dirigida à criança no sentido cada vez mais dado a ela hoje em dia. De algum modo, é uma educação contra a criança, que não leva em conta o que ela é, mas olha para o modelo do que pode ser, e que anseia torná-la depressa o jovem perfeito (o guerreiro, o atleta, o artista de seu próprio corpo-e-mente) e o adulto educado (o cidadão político a serviço da polis)” (p. 46-47).



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Poema

Eternidade

Eternidade é ter
em cada idade
o desejo do sem-fim
E em cada fim,
o desejo do começo.

Eternidade é pôr virgulas,
Não pontos.
É estender a narrativa da vida
criar enredos, histórias,contos...

Algumas pessoas são eternas,
Não pela quantidade de carnavais
Semanas Santas ou primaveras.

São eternas as pessoas que deram
Ou dão
Um instante de sentido a alguém
Que dão amor a quem não o tem.

Marcas do eterno são
Sinais de Deus em nós,

Eternidade é estar vivo
não só em matéria corpórea
mas na mente e no coração
de alguém!

André Marques

sábado, 28 de agosto de 2010

A orientação dos PCNs para o ensino de produção de texto e algumas tendências presentes nos LDPs

A orientação do PCN é clara no que tange ao ensino da escrita.Introduzir métodos que privilegiem o aspecto sociointeracionista na produção de textos.Por isso, aconselham o uso dos gêneros como unidade de ensino o qual remonta ao uso do texto e da língua em seu uso social; “quem diz, diz a quem e como diz” essas perguntas leva o aluno a se posicionar de forma crítica diante do texto e entender o funcionar de cada gênero e a função que desempenha no meio social. O docente deve instigar o aluno a criar texto e produzir gêneros textuais.

“formar escritores competentes supõe, portanto, uma prática
continuada de produção de textos na sala de aula, situações
de produção de uma grande variedade de textos de fato e uma
aproximação das condições de produções às circunstancias nas
quais se produzem esses textos.”

O texto supracitado nem sempre se concretiza no ambiente escolar. Muitos professores calçados em LDP que não privilegiam os ensinos de lingüística do texto, acabam criando hábitos de recomendar os alunos a apenas fazerem textos, narrativos, descritivos e dissertativos tratando-os ainda como gêneros. Essa abordagem estruturalista que tira do texto seu caráter discursivo e o coloca simplesmente como uma redação escolar tira o enfoque sociointeracionista proposto pela lingüística social.

O LDP PROENÇA, Graça.HORTA, Regina.A palavra é Português.ed.Ática SP,1999 (8ºsérie p.119) traz em sua unidade ensino “Propostas de redação” a seguinte tipologia de exercício para a elaboração de textos:

Observe esta foto. (foto de quatro jovens juntos subindo as ruas de Ouro Preto M.G) Crie dois parágrafos descrevendo o que você vê.Um dos parágrafos deve ter um enfoque objetivo: tente retratara cena independentemente de sua interpretação e dos sentimentos que ela pode causar em você. No outro parágrafo,realize uma mudança de enfoque: sua descrição deve conter a subjetividade, o seu mundo interior, os sentimentos que ela provoca em você. Dê um titulo adequado a cada um dos parágrafos. (p. 119)

Essa proposta de texto é um pretexto para ensinar gramática pela gramática. A descrição nessa proposta, certamente comprometerá a semântica do texto. O aluno estará preocupado em descrever apenas e não em fazer um texto coeso e coerente já que nem mesmo é mencionado na questão. “Essa é uma tipologia de base clássica como referência central para a progressão no domínio da escrita”, esse tipo de questão volta a patentear narração, descrição e dissertação como gêneros.

A tipologia textual representa características estruturais de sequências textuais que pode figurar nos mais diversos gêneros textuais. Na parte que tange ao nosso estudo, “compreensão de texto”, há pesquisas que revelam uma didática pouco eficaz na elaboração de propostas nos livros de português. A ineficácia dessa didática-pedagógica não se dá na forma como se trabalha a produção de texto, mas na forma com que são elaboradas as questões para compreender os textos. Os alunos acabam sendo vítimas de um método que restringe sua capacidade intelectual de produzir, pensar, e polemizar os textos devido às propostas que esbarram na unívoca forma de pensar o texto, deixando de gerar os discursos essências a formação consciente de um cidadão crítico capaz de interagir com o texto.
O próprio PCN sugere o domínio da linguagem como atividade discursiva e cognitiva. Por isso, é dever dos LDP e dos professores conduzir o aluno a interação criação de texto plurissignificativo e com o outro. A partir daí, a compreensão de texto seria vista como um processo criativo, construtivo que vai além do que está somente nas marcas textuais. De essa forma preterir-se-ia o mito do texto monossemântico e de pura decodificação.


Bibliografia

MARCUSCHI,Luiz Antonio.Compreensão do texto: Algumas reflexões. In:DIONÍS,Ângela P.;BEZERRA,Maria Auxiliadora.O livro didático de Português.RJ:Lucerna,2001

Uma conseqüência didática do texto

     Uma das características dos gêneros textuais é a maleabilidade de adaptação às necessidades de comunicativa do Mundo Pós-Moderno. O uso frequente desses meios de interação pela linguagem para comunicar-se com a comunidade lingüística, seja ela oral ou escrita é responsável pela ratificação do gênero. O homem se comunica de várias formas e por vários meios, por isso, a gama de gêneros textuais dos quais utilizamos é grande e diversificada; telefonemas,e-mail carta,bilhete,sermão,edital, aula expositiva etc. Essas formas textuais são gêneros por que foram materializados pelo uso sócio-discursivo maciço no cotidiano.

     Os gêneros são muito variados e ultrapassam o número dos quatro mil, segundo pesquisas desenvolvidas atualmente. Os “tipos textuais” existem em menor número e são estes: narração, argumentação, descrição, injunção e exposição.Lembremos que estes tipos estão presente tanto escrita como na fala. Ex: Os jornais televisivos,na leitura dos escritos, conservam os tipos seja narrativo, argumentativo, descritivo ou outro qualquer no ato da fala. O tipo textual é uma nomeclatura nova haja vista durante muito tempo foi tratado como gênero: narração, descrição e dissertação. Hoje porém, os lingüistas os chamam tipos textuais ou seqüências tipológicas.Convém lembrar que um gênero não é composto de apenas um tipo textual o que pode haver é a predominância de um ou outro.Nos gêneros textuais percebemos trechos de narração,descrição e argumentação. Essa heterogeneidade tipológica é comum nos gêneros pois ninguém se comunica ou escreve só narrando, descrevendo ou argumentando muito menos apenas fazendo injunção e exposição. Há sempre trecho deste ou daquele tipo.

     O professor pode com os gêneros textuais aplicar o ensino de língua portuguesa com a linguagem presente nos gêneros. Apontar características de cada um gênero, particularidades a que publico se destina, tempos verbais, o tipo de linguagem,reconhecer verbo como marca de seqüência narrativa, identificar a função de substantivos e adjetivos na construção de personagens diferenciar a linguagem conotativa da ficção da linguagem denotativa da noticia, da reportagem enfim,o professor pode fazer dos gêneros um instrumento de ensino que tem como base a própria realidade discursiva.

Perspectiva de tratamento da produção de texto

1. A perspectiva do texto como produto

Ao tratarmos o texto como um produto, podemos apreender essa tese a partir de dois prismas; o primeiro se trata da concepção de que um produto é algo acabado, trabalhado, perfeito sem necessidade de retoques, pronto para ser utilizado. O segundo, trata a partir de uma perspectiva sobre a qual o texto seria um produto a ser consumido, ou seja, que sofrer a ação direta do consumidor.Aliamos por isso, esses dois prismas porque entendemos que o texto é um produto semipronto e, é o leitor, consumidor que irá interagir nesse processo que engloba produto e consumidor, que nada mais é que a relação texto leitor.

Por isso,para Marcuschi, é tão essencial a relação aluno/texto. Essa relação se deve porque o aprendiz que pretende elaborar textos necessita de uma proximidade com os mais diversos tipos de gêneros textuais e compreender as características de cada um, a que público se refere, qual a intenção, em que meio é vinculado. O aluno se depara com a realidade cotidiana a qual ele é um consumidor, inclusive de textos. O aluno se comunica através de gêneros textuais e no entanto, aprende nas escolas e com base nos LDP apenas por meio de frases.

Não é raro encontrarmos LDP que permanecem teorizando a partir de frases quando o que é mais eficaz para o aluno é o texto como unidade de ensino.Com o avanço da Lingüística Textual, pudemos notar avanços nessa área.Professores têm evoluído no sentido de ensinar a partir de textos.

Quando falamos que o texto está semipronto, abordamos algo essencial que se chama dialogismo, os textos dialogam entre si, seja escrito ou oralmente. O texto torna-se um produto pronto quando ele consegue comunicar algo a alguém, e, nesse momento ele começa a sofrer a influência do seu leitor nessa relação que surge. Essa é a função social da linguagem textual: um instrumento de comunicação. Por isso, falamos do texto como um produto não acabado e que para ser “ponto” precisa ser consumido pelo seu interlocutor, pois um e outro se interpenetram.

A tendência que a muito está em voga na metodologia de ensino é enxugar os textos. Os professores ditos tradicionais, utilizam os melhores textos dos mais diversos tipos de gêneros para retirar frases e aplicá-las no ensino de “pura gramática” . O próprio Marcuschi afirma que o ensino a partir de frases é insuficiente para servir de base teórica ao aprendizado sobre o funcionamento do texto. “É possível compreender uma frase a partir do ensino do texto mas, é impossível compreender o texto a partir do ensino de uma frase”, por isso a competência textual não se explica através da expansão da competência frásica.Um passo importante para que tenhamos alunos com competência textual é criar mecanismos dentro de sala, na escola ou em casa, que suscite nele à vontade de ler. O aluno que lê, vai automatizando as características de cada gênero lido. E, com a ajuda do professor, logo se torna capaz de distinguir aspectos peculiares a cada gênero textual.Ao ler, o aprendiz, vai registrando em sua memória formas de escrever, estruturas, palavras novas e informações que aumentarão seu conhecimento de mundo, se tornando crítico e capaz de compor textos coesos e coerentes pela gama de leitura e a experiência que adquiriu.Essa é a contribuição da lingüística, pensar, refletir e ensinar através dos textos como unidade da linguagem em uso.Ninguém se comunica por frases isoladas e descontextualizadas. Na verdade, Bakhtin defende o dialogismo, porque segundo ele estamos sempre emendando um discurso já existente. Por isso, o fato de a língua ser um fato social que se remete a uma dada situação de uso real. A linguagem é a manifestação elocutiva de cada um.

A lingüística colaborando para uma otimização no processo de criação e de ensino-aprendizagem considerou fatores essências para a definição da textualidade:

O primeiro fator formal é a coesão.

”Um texto não é apenas uma seqüência ou soma de frases isoladas”
(KOCH, Ingedore Vilaça. Coesão textual.Ed. contexto.SP,2004).

Podemos então, a partir dessa asserção, desmistificar a eficiência do ensino de frases para a compreensão de textos. Os mecanismos de coesão estabelecem relações precípuas na concatenação das idéias que compõem o todo de um texto. É por meio desses recursos que podemos tecer cada fio do texto formando uma tessitura do texto. São esses mecanismos que estabelecem ralação de sentido no texto na ligação de cada enunciado. Segundo Koch apud Halliday & Hasan (1976) a coesão é um conceito semântico que se refere às relações de sentido existentes no interior do texto e aquilo que o define como texto. Ainda segundo eles,a coesão ocorre quando algum elemento do discurso é dependente do outro.Por isso,o ensino, apenas por meio de frases isoladas de seu de seu contexto, não é capaz de formar alunos capazes de entender as inter-relações que cada frase possui no texto na produção de sentido. A textualidade só é possível através do domínio desses mecanismos. Marcuschi (1983) define os fatores de coesão como “aqueles que dão conta da estruturação da seqüência superficial do texto” afirma ainda que não se trata de elementos meramente sintáticos mas de “uma espécie de semântica da sintaxe textual”. Com isso,podemos atentarmo-nos às deficiências que há em nossos alunos em interpretação de texto devido ao ensino meramente sintático sem se preocupar com o significado semântico que a frase possui no gênero de origem. Dessa forma, o aluno fica impossibilitado de “consumir” o texto, ficando com as migalhas das frases.
O segundo fator é semântico-conceitual representado pela coerência.A coerência é, por assim dizer ,mecanismo capaz de estabelecer um sentido para o texto e fazê-lo ser compreensível ao usuário. A coerência é o principio da inteligibilidade do texto numa situação de comunicação e que fornece ao leitor subsídio para uma compreensão de seu sentido. E, este sentido é um todo, amplo, já que a coerência abarca toda a superfície textual.

Em seu livro, Koch apud Van Djik e Kintchi (1983) os quais falam de coerência local, referente à parte do texto ou frases ou seqüências de frases dentro do texto; e coerência global que diz respeito na sua totalidade. Koch defende a tese de que a coerência é sempre global e, a coerência local advém do bom uso da língua em seqüências menores,para expressar sentidos que podem possibilitar uma realização comunicativa.

O terceiro fator é a pragmática. Os filósofos John Austin e Paul Grice este defende a linguagem não como descritiva mas com a função de agir o outro mostra que a linguagem natural comunica mais do que aquilo que se apresenta num enunciado pois apresenta conteúdos implícitos devidos ao contexto no ato da fala. De fato,a pragmática está relacionada ao funcionamento do texto em relação a seu contexto, sua situação comunicativa no âmbito social, no uso da linguagem.A lingüística tem nos apresentado, com isso, os aspectos relevantes nos textos tais como: intencionalidade; esta como concernente ao empenho do produtor em construir um discurso capaz de satisfazer os objetivos que tem em mente numa determinada situação comunicativa. A aceitabilidade a qual tange ao que diz respeito ao destinatário, interlocutor que entra em contato como texto. Quanto mais coeso e coerente e mais próximo da utilidade prática mais aceitação terá o texto. A situacionalidade que também está relacionado a pragmática pois sublinha a importância do contexto na compreensão da situação sócio-comunicativa. A intertextualidade, diálogo entre textos que a partir do conhecimento prévio de mundo do interlocutor é capaz de diversificar e ampliar o discurso. A informatividade que se relaciona a de informação, comunicação que o texto passa ao seu interlocutor.Enfim, há outros que podem ser citados em outros estudos.
Na década de 90, além dos debates sobre fatores da textualidade começou a surgir também um estudo mais acentuado sobre gêneros e tipos textuais. Ao fazermos esse estudo sobre “Gêneros textuais” devemos fazer, primeiramente, uma distinção entre gênero literário e gênero textual. O gênero literário, segundo Aristóteles e outros teóricos de mesma linha são os que se referem a obras de cunho lírico, épico e dramático. Já os gêneros textuais, segundo Marcuschi, “são entidades sócio-discursivas e formas de ação social incontornáveis em qualquer situação discursiva” seja na escrita ou oralmente. Com isso, a sociedade se comunica e, nesse processo comunicativo perfaz os gêneros textuais.

Resenha do Filme "Quase dois irmãos

A narrativa do filme fragmenta-se em blocos temporais em que se contam os fatos, fazendo digressões a determinadas épocas, revivendo situações e conflitos. Desse modelo de narrar, conta-se o envolvimento de duas famílias: a de Miguel cujo pai, jornalista rico e morador da zona sul do Rio, se enveredava no gueto carioca em busca de samba; e a de Jorge, família pobre, pai sambista e mãe empregada doméstica.

A relação amistosa entre Miguel e Jorge tem início exatamente neste período em que seus respectivos pais se encontravam para uma boa roda de samba. As visitas à favela eram cada vez mais constantes e demoradas e, por isso, consolidava-se não só a amizade dos pais, mas, sobretudo, a dos filhos.

O filme conta, a princípio, a história de um grupo jovens da política de Esquerda no Brasil. Era um grupo que fazia oposição ao modelo ditatorial dos militares. O cenário do embate político ideológico era a cidade do Rio de Janeiro com seus contrastes geográficos, sociais, políticos e econômicos.

Os que faziam oposição ao Regime eram jovens de famílias de classe média, universitários, advogados, médicos, moradores de área nobre da cidade, com familiares de influências; pessoas que faziam parte da elite sócio-cultural da época.

Não demora muito para se perceber que esse grupo começa a ser vigiado mais de perto pelo Sistema vigente, uma vez que os jovens que o integram começam a praticar assaltos, seqüestros e, por vezes, até homicídios em razão da ideologia de Esquerda comunista.

Surge no seio da sociedade brasileira um movimento de oposição cada vez mais eminente, uma esquerda comunista declarada, ostensiva e ofensiva, o que fez com que a liderança militar reagisse de forma veemente, metendo no cárcere todos os que coadunassem com aqueles princípios reacionários. Declarados subversivos e uma ameaça ao país, muitos foram mortos, outros se asilaram e outros ainda encarcerados como presos políticos.

Ao passar do tempo, a Ditadura mantém viva no país a repressão, a censura, o cerceamento da liberdade e o controle de seus presos políticos, que muitas vezes eram torturados ou mortos. Por alguma razão, porém, nos anos finais da Ditadura, o governo militar começa a misturar os presos políticos com os presos comuns, talvez por desdém a condição política presos ou mesmo para dissimular a existência de presos políticos no Brasil.
Nesse ínterim, os dois amigos de infância, Miguel e Jorge, se reencontram na prisão em Ilha Grande, outrora, local para onde eram enviados os presos políticos. Nesse ambiente hostil e inóspito, presos comuns e presos políticos passam a conviver em um mesmo espaço onde diferenças históricas, sócio-culturais e econômicas gestam conflitos de opiniões e objetivos, constituindo em cada grupo Formação discursiva com ideologias distintas.

Podemos, então, dizer que temos como parte constitutiva do sentido o contexto histórico-social, o conflito de classes, o conflito de ideologias políticas e outros que aparecerão e mencionaremos na análise constitutiva do discurso.

Gênero Textual Manchete

Gêneros textuais são tipos específicos de textos de qualquer natureza: literários ou não. Desempenham um papel social de comunicação porque são historicamente determinados para desempenhar modelos discursivos, como defende Marcuschi.
As modalidades discursivas constituem as estruturas e as funções sociais (narrativas, discursivas, argumentativas) utilizadas como formas de organizar a linguagem. Dessa forma, podem ser considerados exemplos de gêneros textuais: anúncios, convites, atas, avisos, programas de auditórios, bulas, cartas, cartazes, comédias, contos de fadas, crônicas, editoriais, ensaios, entrevistas, contratos, decretos, discursos políticos, histórias, instruções de uso, letras de música, leis, mensagens, notícias. São textos que circulam no mundo, que têm uma função específica, para um público específico e com características próprias. Aliás, essas características peculiares de um gênero discursivo nos permitem abordar aspectos da textualidade, tais como coerência e coesão textuais, impessoalidade, técnicas de argumentação e outros aspectos pertinentes ao gênero em questão.
A Manchete de jornal engloba um desses tantatos gêneros que utilizamos diariamente em nossas relações interdiscursivas, sociais, pragmaticamente determinadas.

Características:



Chama a atenção do leitor para o conteúdo informacional da notícia;

Quase sempre o texto verbal vem acompanhado de imagem;

Texto que amplia o argumento do texto;
Acompanhada do leed: resumo da notícia com todos os elementos essenciais à compreensão da matéria;

Qualidade: verdadeira, atual, interessante;




A linguagem jornalística

Adota o padrão culto da língua, sem contudo, perder de vista o universo vocabular do leitor. Exige o emprego mínimo de palavras e o máximo de informção, correção, clareza e exatidão.

sábado, 17 de abril de 2010

O Signo Linguístico

A nossa percepção de mundo é, sem dúvida, mediada pela linguagem. A língua é, por isso, a forma mais eficaz de apreender a realidade e de estabelecer diferenças entre as coisas em que nele estão presentes. Para efeito didático, é preciso ressaltar que a língua não é um sistema de nomenclatura. Para isso, a língua constitui-se de um complexo sistema de signos que é capaz de “categorizar”, interpretar e organizar o mundo.

Entretanto, cada língua goza de autonomia para estabelecer as relações entre os signos e seus referentes. É por isso que o linguísta defenderá a tese de que cada língua pode categorizar o mundo de forma diversa.

O conceito de signo –– entendido como significante e significado, respectivamente a impressão psíquica que temos do som e o seu conceito; sua definição –– é o primeiro fator a ser analisado: o signo linguístico não é a coisa ou o objeto real, concreto, o signo linguístico é, como diz Saussure, um conceito, uma definição arbitrária e imotivada que faz referência a algo que está no mundo extralingüístico. Esse fato implica uma outra teoria, a de que cada língua organiza e categoriza e interpreta o mundo de maneira diversa.

A união significante/significado é uma relação conceitual e arbitrária sistematizada por cada língua, a fim de que uma mesma comunidade linguística partilhe dos mesmos signos, formando um sistema coerente e definido. Ora, se o signo não é a realidade, mas um conceito/imagem acústica, em cada língua haverá, então, signos diferentes para simbolizar e fazer referências ao mesmo “ente”, “ser”, “coisa” ou objeto. Esse fato se deve a autonomia que cada língua possui para arbitrar e reger o seu léxico, a sua estrutura, compondo para isso um sistema de signos.

Por exemplo: existem vários signos para designar ou categorizar o que em português conhece-se pelo signo mãe: em inglês mother, em latim mater etc. O que queremos destacar aqui é o fato de que cada língua possui sua própria arbitrariedade na relação signo/referente, isso comprova, segundo Saussure, que o signo não é a realidade, mas uma impressão psíquica que temos de um dado som e seu conceito sistematizado em uma língua.Um falante que tem o inglês como língua materna, ao ver o objeto “mesa” pensará talvez terá a mesma definição, mas o signo será table, ou seja, cada língua possui sua forma de categorizar.

Ao afirmar que o signo não é a realidade, apontamos para a dicotomia de Saussure: o signo nada mais é que um conceito ligado a uma imagem acústica; uma impressão psíquica que ativa “frames” da linguagem e suscita no falante nativo a compreensão do que aquele signo evoca e não do que ele é.

A substância do signo é o som unido a um conceito que por meio da imagem, da impressão psíquica, é capaz evocar referentes, de criar um mundo autônomo de coisas inexistentes ou ausentes, sem a necessidade de que essas sejam reais. O universo dos signos lingüísticos que vigora em uma língua, pode, por isso, não só “nomear”, “categorizar” e servir de ferramenta para a comunicação, o signo é o modo de ver e pensar o mundo uma vez que os signos prescindem a coisas e objetos; não é preciso das coisas ou objetos para comunicar-se, mas é preciso dos signos, que organizam seu o pensamento com sua natureza simbólica e referencial. A guisa de exemplos, podemos citar os signos bruxa, vampiro, fantasma etc. que não existem na realidade, mas que ganham existência no universo linguístico. Esse fato só é possível por que o que rege os signos não é a natureza real, factual ou fictícia, mas o valor que lhe fora concedido dentro do sistema linguístico.

A noção de valor dá-se por meio da oposição de significado, de sentidos entre signos. Cada signo linguístico é único, o que caracteriza a relação de alteridade, estabelecendo então que o valor que há em um signo não existe em outro. Por isso, podemos observar que os signos lingüísticos não se confundem entre si, cada um categoriza algo distinto no conjunto dos demais signos.
Mesmo quando falamos dos sinônimos, observaremos que há no mínimo um sema que garante a precípua distinção semiológica, uma vez que um signo delimita o outro, principalmente num mesmo contexto ou ambiente linguístico. Isso só é possível porque o valor dá-se pela diferença entre significantes e significados.
O fato de não haver univocidade entre os signos ou correspondência direta entre eles faz com que haja um esforço maior na atividade de tradução para encontrar signos com “valores” aproximados.
Nessa atividade, entra em jogo o conhecimento não só da língua, mas da cultura daquele país a fim de que se possa apreender o sentido do texto para aquela comunidade linguística e traduzi-la sem grandes prejuízos para a língua alvo. Podemos esclarecer por meio de um exemplo: utilizaremos o signo amor; em hebraico há o termo “ahabah” para designar o amor com sentido marital (ler gêneses, 29,20). No entanto, existe outro termo “dod”, que sintetiza relacionamentos humanos como o de casais e também expressa relação sexual e a relação de idolatria. No novo testamento da Bíblia, temos designativo para o amor em termos gregos: ágape para o amor a Deus; Eros para o marital e Phileo para expressar o amor com sentido de amizade. Em português, esses valores se coadunam em um só signo, devendo o tradutor observar o entorno do texto, as bases sócio-culturais que se tem como fulcro para clarificar, então, o sentido do termo utilizado a finalidade de seu emprego. Em português o termo amor é mais amplo e abrange todas as relações de afeto.

Partindo desse pressuposto, podemos dizer que cada signo possuir no mínimo um sema que o diferencie de todos os outros. Sendo assim, nenhum signo lingüístico é equivalente ou correspondente exato, pois haverá sempre, no mínimo um sema no significado ou nos merismas (no significante) que os tornam únicos pela oposição.

Se a língua, como diz Saussure, é um sistema de signos, esses signos devem estar delimitados de tal forma que se distingam como duas realidades linguística de valor; e por isso, um signo torna-se interpretável por outro em razão dos sememas que os delimita, quando se contrai relação com conjunto de signos da língua.
O valor é, portanto, o que um signo é em detrimento do que os outros não são. Fiorim vai dizer em seu estudo que a significação é uma diferença entre um signo e outro na interpretação e na produção de diferenças.
Estabelecer diferenças entre palavras antônimas num mesmo eixo paradigmático que se tem intenção clara de opor o semema dos signos não seria de difícil apreensão. Signos como: amar/odiar; começar/parar etc é facilmente interpretável como opostos, pois têm valores distintos no sistema de signos. No entanto, quando há uma relação de sinonímia, as nuances diminuem e requererá do escritor uma seleção: o que será colocado ao lado de, ou no lugar de? O que leva um elemento da língua ser “colocado” em lugar de outro é determinado pela intenção do enunciador, o efeito que se quer obter, é a escolha consciente que objetiva criar sentido para quem ler e interpretar. Nos signos “gostar”, “amar” e “adorar” temos nuances dos valore. Estes signos colocados em ambientes lingüísticos próximos, criam efeitos de sentido provocado pelos valores distintos entre eles:

Ele adora Maria.
Ele gosta de Maia.
Ele ama Maria.

Se o signo Maria fizer alusão à uma provável namorada, haverá uma graduação do afeto: adora/gosta/ama, uma vez que em português “adorar” não possui o mesmo valor que para os hebraicos. E, em relação a afeto, o termo possui menos intensidade que gostar e amar. Ou seja, o valor de gostar e amar é mais utilizado para demonstrar afetos. Já se o nome Maria representasse a “mãe de Jesus”, os valores se inverteriam e o signo “adorar” sobrepujaria os outros signos, ganhando valor de “latria”, culto prestado a alguém. Portanto, é o falante que fará escolha do signo, levando em consideração o objetivo pretendido. Amar/adorar/gostar terão valores distintos na língua portuguesa quando estabelecer relação

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A origem da Língua Latina

O latim teve sua gênese no Latium (Lácio), região da Península Itálica, em sua parte mais central. Por volta do século VIII a.C., nessa mesma região, foi fundada a cidade de Roma sobre o mito de Rômulo e Remo.

Segundo teóricos, há registros da Língua Latina que datam desde o século XI e VI a.C. Trata-se de antigas “inscrições”, que já utilizavam rudimentos dessa língua. Entretanto, tais inscrições eram bem diferentes de como chegou aos séculos posteriores. Os mais antigos textos literários, porém, pertencem ao III século de nossa Era.

Certamente, o contato com outros povos em razão do expansionismo territorial romano contribuiu e enriqueceu todo arcabouço cultural romano. Povos como os egípcios, etruscos, sumérios, acádios, bálticos, celtas, germanos, saxões, asiáticos etc. foram decisivamente colaboradores na formação cultural dessa cultura latina.

Entretanto, o povo que maior influência exerceu sobre Roma foi o grego. Desde que foram estabelecidas as primeiras relações entre Roma e Grécia, passa a haver uma simbiose, uma troca de valores, o que desencadeou um verdadeiro processo de helenização em Roma. O contato entre essas sociedades estabelece um novo momento para a difusão cultural: Roma passa colher em fontes gregas as formas de apreender religião, a literatura, o alfabeto, costumes, gêneros literários etc. Esse contato enriquece as manifestações culturais em Roma, já que a Grécia estava muito a frente na produção literária e política.

A fala é o que atualiza a língua. Em Roma, devido o processo de expansão, a língua latina foi sendo espalhada por vários cantos do mundo como língua oficial. Paulatinamente, o latim foi sofrendo alterações, transformando-se no que se denominou chamar de Latim Vulgar. Começou a haver, por isso, uma distinção entre o latim falado entre os nobres (Latim Clássico) e o latim falado nas ruas e nos escritos não literários (Latim Vulgar).

Alguns dos motivos para compreender as mudanças ocorridas na língua latina foram, sem dúvida, o contínuo avanço do latim para as regiões conquistadas (as províncias), as grandes distâncias geográficas, o nível cultural dos falantes e a influência estrangeira no processo de aquisição da língua. Se o latim clássico era falado essencialmente pela nobreza, a elite latina, o latim vulgar era falado pelas classes menos abastadas, pela plebe, pelos soldados, escravos etc.

O latim vulgar, mais presente na fala e na oralidade, tornou-se difuso e falado em quase todos os lugares. Entretanto, conservava-se nos textos literários o latim clássico. Mas foi a partir do latim vulgar que se originaram as línguas românicas como o português, francês, italiano, dálmata, romeno, sardo, espanhol etc. Dessa variante lingüística, tida como desvio da norma, nasceram as línguas românicas que compõem as línguas latinas faladas ainda hoje tendo o latim como substrato.

O latim passou por diversas fases em sua contínua evolução desde a descoberta de seus primeiros escritos. A primeira fase é a do latim pré-histórico, falado entre os primeiros habitantes do Latium e anterior a possíveis documentos escritos. Acredita-se que fora falado entre os séculos XI e VIII a.C.

A segunda fase é a do latim proto-histórico, presente nos primeiros documentos escritos. As primeiras inscrições são encontradas na fíbula de Preneste, uma fivela do século VII ou VI a.C. Também foi encontrado inscrições em vasos como o vaso de Duenos.

A terceira fase é a do latim Arcaico. Trata-se da língua falada entre o século III e I a.C. É encontrada em antigos textos literários como as obras de Plauto, Terêncio, Névio, Ênio, C Latim Vulgar Catão ––e também em epitáfios.

Outra fase é a do latim Clássico que floresce a partir do segundo quartel do século I a.C. É nesse período que são compostas as memoráveis obras que marcaram a prosa e a poesia latina. A língua foi imortalizada nos textos de Cícero, Virgilio, Horacio,Titus Livius e outros eminentes escritores.

Outro momento da língua foi o latim vulgar. A passagem do latim clássico para o latim vulgar foi consequência natural da língua seguindo suas necessidades reais de comunicação. Embora tenha se desenvolvido nas camadas populares: pela plebe, pelos artesãos, clientes etc. no dia-a-dia, na oralidade essa variante foi “tomando corpo” e importância, chegando a estar presente em obras literárias como as de Plauto, colocando em seus personagens de teatro a voz a linguagem do povo.

Por fim, temo o latim pós-clássico que se encontra nas obras literárias compostas entre os séculos I e V de nossa Era. Nesse período, a distancia entre a língua falada e a escrita diminui consideravelmente. Com as várias invasões, o latim vai perdendo sua unidade e começa a transformar-se em diversos falares locais o que desencadearia as línguas românicas.

O alfabeto latino, por muito tempo, constou de apenas 21 letras que eram: A, B, C, D, E, F, G, H, I,K, L, M, N, O, P, Q, R, S, T, U, X. A posteriori, para transcrever certas palavras de origem grega foram, no século I a.C., acrescentadas as letras Y e Z de seu alfabeto. Além disso, por carecer das consoantes J e V, as vogais I e V faziam a função das consoantes referidas.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Steven Pinker e a Linguagem

O psicolinguista norte americano Steven Pinker , em entrevista dada à Folha de São Paulo em 05/01/2007, tece comentários sobre o que ele concebe por “instinto” da linguagem.
Em resposta à pergunta sobre o que queria dizer com tal termo, Pinker diz que não se refere à capacidade de falar uma determinada língua como o inglês ou o francês, mas à capacidade inata da espécie humana de adquirir e utilizar a linguagem. O psicolinguista faz uma analogia às aranhas, cujas teias seriam sua habilidade inata, que por ser instinto, não dependeria do estímulo externo, do ensino, “seu cérebro de aranha é que lhes dá a pulsão de tecer e a competência para fazê-lo”.
De semelhante modo, uma criança de berçário já estaria apta a realizar a linguagem porque existiria “uma máquina de aprender”, um programa para a linguagem, que seria uma faculdade inata, que nos tornaria capazes de apreender estruturas e realizar operações linguísticas, o que Chomsky chama de Gramática Universal.
Ao ser indagado sobre o porquê de uma criança não nascer falando, o linguista advoga que o cérebro dos bebês não nascem prontos. E, o tempo necessário para isso seria 18 meses, idade com a qual as crianças começam a falar. Depois do nascimento, o cérebro da criança passa por “transformações” que aprimoraram desenvolvimento linguístico. O aprendizado dar-se-ia, então, com o compartilhamento do código, ou seja, a capacidade inata (GU) sincronizando-se à língua falada ao redor de si.
Segundo Pinker, ao ser perguntado sobre a gramática universal de Chomsky, ela consiste em uma estrutura subjacente a todas as línguas. Observa-se esse fenômeno nas crianças quando começam a falar. A G.U lhes permite falar mediante regras complexas da linguagem, sem, contudo, precisar repetir o que ouviu ao seu redor. Por isso a G.U processa e atualiza a língua criando um conhecimento inconsciente da linguagem.
Sobre a diversidade de línguas mesmo com a existência da GU, o linguista diz que embora haja diferenças entre essas línguas, as estruturas são semelhantes; a sintaxe, a fonologia, e parâmetros estruturais.
Além disso, haveria mais pontos em comum: o canal boca/ouvido na interação, que pressupõe a percepção – “um milagre biológico”. Uso de código lingüístico simétrico e arbitrário que convencionam as palavras. O uso de categorias de palavras que nomeiam e caracterizam, e dão noção de tempo também são particularidades das línguas, mesmo distintas.
Sobre as ligações da linguagem com o cérebro, Pinker alega que não é um estudo fácil por que não se pode utilizar ratos ou moscas como objeto de pesquisa. A maior informação seria advindas de estudos de pessoas com problemas neurológicos. Segundo ele, o aprendizado (da linguagem) corresponde a certos reforços da sinapse (conexões entre neurônios) .
Perguntado sobre se há existência de um gene da gramática, o linguista não afirma categoricamente a existência de gene da gramática. Diz, porém, que há, grandes problemas sobre a linguagem e sua gramática e estão relacionados a problemas genéticos, mas isso não suporia um gene específico para essa área da gramática e das regras da linguagem.

Falares locais e dialetos

No Brasil, como há variedades de falares, pode-se observar algumas nuances fonéticas na realização da langue, o que comumente denomina-se dialetos. Antenor Nascentes identifica essas nuances e a abrangência delas como falares ou dialetos locais e regionais. Há, para ele, no Brasil, o falar fluminense, o falar baiano, o nordestino, o sulista e o amazônico. Nessas regiões, identificam-se particularidades lingüísticas (fonéticas, fonológicas, morfológicas etc.), que apontam para pluralidade de normas e registros.

No norte do país, registra-se o uso maciço da vogal pretônica aberta. Em palavras como /odeio/, /rebolo/ têm-se, respectivamente, a realização fonética [ódeio] e [rébolo] com a vogal pretônica aberta, com recorrente uso na Bahia, Pernambuco e outros estados do nordeste. Na região de São Paulo, observa-se que o fonema /r/ em sílaba travada, como em porta, é retroflexo, alguns o chamam de [r] caipira. No Rio de Janeiro, o mesmo fonema /r/, em sílaba travada se articula como fonema mais gutural, velar. Em falares/dialetos nordestinos como na Paraíba, Pernambuco, Ceará, além da prosódia característica, têm-se o fonema oclusivo /t/ com traços mais linguodentais, como se vê em [tia], já no dialeto fluminense, este mesmo fonema oclusivo /t/ antes do fonema vocálico /i/ , apresenta [tsia], um chiado característico, próprio do falar do Rio de Janeiro, o que a fonética chama de [ts] africado.

Em termos gerais, diz-se que os “dialetos são as formas características que uma língua assume regionalmente” (CUNHA, 2007, p. 4). Ou seja, são as variedades linguísticas, que se materializam mediante uso maciço e expressivo por uma comunidade, grupo ou região que partilham da mesma norma.

Se o dialeto possui uma abrangência social da língua, o idioleto é o uso particular, a parole. Ele é, pois, a realização individual e expressiva da língua, que, por conseguinte, abarca todo traço linguístico do falante. No idioleto é que se observa o conceito de desempenho/performance chomskyano, na relação competência/desempenho.

Ao falar sobre diferenças que existem em um sistema linguístico, reconhece-se que embora haja uma unidade estrutural da língua, não há uma igualdade ou homogeneidade nela, ou seja, o sistema não é monoclítico e sim heteroclítico. Há um ideal de língua padrão, que vige como variante de prestígio e há variedades (ditas) não-padrão, língua mais popular. O fato é que a língua, nesse caso específico a portuguesa, sofre a todo instante a ação de seus falantes, e de acordo com escolaridade, região e grau de (in) formalidade que a situação exija, têm-se realizações distintas para a mesma língua portuguesa.

Existem estudos linguísticos que investigaram as particularidades que jaz a variação da língua. Segundo pesquisas, a língua sofre variação diatópica. Trata-se de uma variante que existe em determinadas regiões, por influencia de colonização ou até mesmo o clima, relevo etc., que contribui de alguma forma para o desenvolvimento de características linguísticas próprias do grupo, da localidade, formando regionalismos, dialetos. Há também a chamada variação diastrática. Essa variedade é produto do grau de instrução do falante, de sua formação, escolaridade, grupo a que pertence. Ou seja, por esse modelo, afirma-se que o desempenho do falante é determinado pela sua posição sociocultural e seu papel na sociedade. Das diferenças entre as camadas sociais, surgem também as variedades: culta, padrão e popular. E, por último, fala-se na variedade diafásica, que consiste nas diferenças das modalidades expressivas da língua. Entra nesse tipo de variedade a modalidade da língua falada, escrita, literária, língua dos homens, mulheres, faixa etária etc. Todos esses fatores: geográficos, históricos, sociológicos e culturais fazem com que haja variação da língua, seja em nível fonético, fonológico, morfológico, sintático ou semântico.

O instinto da linguagem

Fichamento do livro de PINKER, Steven. O instinto da linguagem;


Cap. 1 Um instinto para adquirir uma arte

Ao ler estas palavras você estará participando de uma das maravilhas do mundo natural. Porque você e eu pertencemos a uma espécie com uma capacidade notável: podemos moldar eventos nos cérebros uns dos outros com primorosa precisão. Essa habilidade é a linguagem. Por meio de simples ruídos produzidos por nossas bocas, podemos fazer com que combinações de ideias novas e precisas surjam na mente do outro.

Em qualquer história natural da espécie humana, a linguagem se distingue como traço preeminente. Um humano solitário é, decerto, um engenheiro e fantástico solucionador de problemas. Mas uma raça de Robson Crusoés não impressionaria um extraterrestre. O que realmente comove quando se trata de nossa espécie fica mais claro na história da Torre de Babel, em que os homens, falando uma única língua, chegaram tão perto de alcançar o céu, que Deus sentiu-se ameaçado. Uma língua comum une os membros de uma comunidade numa rede de troca de informações extremamente poderosa. Todos podem beneficiar-se das sacadas dos gênios, dos acidentes da fortuna e da sabedoria oriunda de tentativas e erros acumulados por qualquer um, no presente ou no passado. E as pessoas podem trabalhar em equipe, coordenando seus esforços por meio de acordos negociados.

A linguagem está tão intimamente entrelaçada com a experiência humana que é quase impossível imaginar a vida sem ela. Quando as pessoas não tem com quem conversar falam sozinhas, com seus cães e até mesmo com suas plantas. Em nossas relações sociais, o que ganha não é a força física, mas o verbo – o orador eloquente, o sedutor de língua de prata, a criança persuasiva que impõe sua vontade contra um pai mais musculoso.

Este livro trata da linguagem humana. Diferentemente de vários que levam “língua” e “linguagem” no título, ele não vai repreendê-lo sobre uso apropriado da língua, procurar as origens das expressões idiomáticas (...) pois não escrevo sobre o idioma inglês ou qualquer outro idioma, mas sobre algo bem mais básico: o instinto de aprender a falar e aprender a linguagem.

Há uns trinta e cinco anos, nasceu uma nova ciência agora denominada “ciência cognitiva”, que reúne ferramentas da psicologia, da ciência da computação, da linguística, da filosofia e neurobiologia para explicar o funcionamento da inteligência humana.

A recente elucidação das faculdades da linguística tem implicações revolucionárias para a nossa compreensão de linguagem e seu papel nos assuntos humanos, e para nossa própria concepção da humanidade. Muitas pessoas cultas já têm opiniões sobre a linguagem. Sabem que é a invenção cultural mais importante do homem, o exemplo quintessencial de sua capacidade de usar símbolos, e um acontecimento sem precedentes em termos biológicos, que o separa definitivamente dos outros animais. Sabe que a linguagem impregna o pensamento, e que as diferentes línguas levam seus falantes a construir a realidade de diferentes maneiras. Sabem que as crianças aprendem a falar a partir das pessoas que lhes servem de modelo, e dos adultos que cuidam delas, sabem que a sofisticação gramatical costumava ser fomentada nas escolas.

Nas próximas páginas, tentarei convencê-los de que estas opiniões corriqueiras estão erradas. Erradas pelo seguinte: A linguagem não é um artefato cultural que aprendemos da maneira que aprendemos a dizer a hora ou como o governo federal está funcionando. Ao contrário, é claramente uma peça de constituição biológica de nosso cérebro. A linguagem é uma habilidade complexa e especializada que se desenvolve espontaneamente na criança, sem qualquer esforço consciente ou instrução formal, que se manifesta sem que se perceba sua lógica subjacente, que é qualitativamente a mesma em todo indivíduo.

Alguns cognitivistas descreveram a linguagem como uma faculdade psicológica, um órgão mental, um sistema neural ou um modo computacional. Mas prefiro o simples e banal termo”instinto”. Ele transmite a ideia de que as pessoas sabem falar da mesma maneira que as aranhas sabem tecer teias. A capacidade de tecer teias não foi inventada por uma aranha genial não reconhecida e não depende de receber educação adequada ou de ter aptidão para arquitetura ou negócios imobiliários. As aranhas tecem por que têm no cérebro de aranha, o que as impele a tecer e lhes dá competência para fazê-lo com sucesso.

Pensar a linguagem como instinto inverte a sabedoria popular, especialmente da forma como foi aceita nos cânones das ciências humanas e sociais. A linguagem não é uma invenção cultural, assim como a posição ereta não o é. Uma criança de três anos é um gênio gramatical, mas é bastante incompetente em termos de artes visuais, iconografia, religiosa, sinais de trânsito etc.

Embora a linguagem seja uma habilidade magnífica exclusiva do homo sapiens entre as espécies vivas, não quer dizer o estudo dos seres humanos deve ser retirado do campo da biologia, pois existem espécies que possuem habilidades magníficas, o morcego por exemplo, capturam insetos no ar com um sonar. No show dos talentos da natureza, somos apenas uma espécie cujo maior espetáculo é o jeito todo especial de comunicar informação sobre quem fez o que para quem modulando os sons que produzimos quando expiramos.

A linguagem, então passa a ser vista como uma adaptação biológica, que é parte de nossa herança genética, biológica, mas que também é adaptação para transmitir informação. Por fim, resume-se que a linguagem seja produto de um instinto biológico, bem planejado, interno. Não é algo que os pais ensinam os filhos ou que se aprende na escola. Uma criança possui conhecimento tácito de gramática mais sofisticado que o mais volumoso manual de estilo ou do que o mais moderno sistema de linguagem de computador. O home tem uma tendência instintiva para falar, como vemos no balbuciar de nossos pequenos filhos.

No século XX, Chomsky elabora a mais famosa tese de que a linguagem é como um instinto, e que as crianças desenvolvem gramáticas complexas rapidamente, sem qualquer instrução formal, e a medida que crescem, dão interpretações mais coerentes a novas construções. Para ele, as crianças têm de estar equipadas de modo inato com um plano comum às gramáticas de todas as línguas, uma gramática universal, que lhes construam o padrão sintático da fala de seus pais.

Chomsky e outros teóricos desenvolveram teorias de gramáticas mentais que subjazem aos conhecimentos que as pessoas têm de certas línguas e da Gramática Universal. Os estudos sobre a linguagem despertam interesses de diversos estudiosos, ampliando a discussão sobre esse fenômeno da linguagem. Cabe, porém, destacar a fascinação pelo tema da linguagem que desperta pesquisas em todo mundo, ratificando as já existentes, ou retificando-as.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Poema: A angústia de Ser moderno

Entre o Céu
E a Terra...
Um espaço (de tempo) que se desloca entre:
A Vida e
A Morte.
Morte...
Viver em: Eros ou Tanathos ?

Qual desejo que se espalha pelo pensamento entre viver e sofrer
Morrer e ter paz.
Ao mundo caduco, um pouco de juízo;
Ao Velho do restelo, profecias mais criteriosas.
De saber que o tempo finda
E o fim já vem
E Le vem já
Já vem ele
Vem ele já
Vê já o
(..)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Fichamento do livro: Manual de Linguística; cap. 1

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
DISCIPLINA DE LINGUÍSTICA II MINISTRADA PELO PROF. EDUARDO KENEDY
Elaborado pelo aluno André Marques

A linguagem é uma capacidade ou faculdade mental que todos os seres humanos- e apenas seres humanos- possuem. Ela é a mesma nos cerca de seis bilhões de indivíduos da espécie humana.
Essa capacidade pode ser considerada um órgão da mente, que nos permite adquirir e usar diferentes línguas.

Dizer que essa capacidade é inata significa que não a aprendemos no curso de nossa experiência de vida, mas já nascemos com ela. Essa competência está em nossa mente e não em um animal, num macaco por exemplo. O macaco ou o papagaio, por mais espertos que sejam não têm essa capacidade em sua mente.

Esse conhecimento tão complexo é parte de nossa biologia. Se não nascêssemos com ele, não haveria meio de aprendê-lo só através da observação das coisas. Se a linguagem fosse aprendida apenas como em um jogo de repetição, só seríamos capazes de falar apenas o que ouvimos. De fato, quando falamos demonstramos saber muito mais do que aquilo que ouvimos.
Essa propriedade de nossa capacidade de linguagem é conhecida pelos linguistas como infinitude discreta, ou seja, somos capazes de produzir um número infinito de expressões gramaticais, a partir de um conjunto finito de elementos e princípios linguísticos. É assim que ocorre com os sons da língua, com vinte ou trinta sons podemos produzir quantas palavras? Não dá nem para contar porque não tem fim.

Duas correntes surgem nesse período, o comportamentalismo de Skinner e cognitivismo de Chomsky. Skinner achava que o fenômeno da linguagem humana podia ser explicado “de fora pra dentro”, isto é, a criança receberia os estímulos linguísticos do ambiente e, então, reproduziria suas respostas verbais. Chomsky demonstrou que só os estímulos ambientais não seriam suficientes, seriam pobres comparados a complexidade do sistema verbal exibido por uma criança.

Chomsky aponta duas questões filosóficas sobre a cognição humana: o problema de Platão e o problema de Orwell. O problema de Platão é exatamente o problema da pobreza de estímulos; como podemos saber tanto com tão poucas evidências? A resposta seria a que já nascemos sabendo. O outro problema, o de Orwell teria a pergunta: “como podemos saber tão pouco se temos tantas evidências?” Chomsky vai dizer que apesar de muitos meios externos de comunicação ainda somos manipulados e por isso acreditamos em certos pontos de vista em detrimento de outros.

O fato de nascermos sabendo, fornece a resposta ao problema de Platão, nascemos com princípios gerais para adquirir uma língua e isso ajuda a organizar os estímulos verbais deficientes.Esse processe se dá de maneira bem homogênea para todas as crianças, independente do meio que sejam criadas.

Esse processo natural e espontâneo é que se chama de aquisição da linguagem, devendo ser diferenciado do termo aprendizagem. A aquisição é o que ocorre a criança exposta a estímulos, a aprendizagem depende do esforço exercido, da prática. A aquisição da linguagem é, de fato, um processo universal, é a sua homogeneidade na espécie humana.
A competência é o saber lingüístico abstrato que temos em nossa mente, esse saber ou competência lingüística é acessado toda vez que precisamos produzir ou compreender frases. O uso desse saber numa situação de fala específica é que constitui o desempenho. Assim, pode-se dizer que competência é o saber e o desempenho é o fazer.

Esse saber fazer compõe regras de encaixe da gramática universal da linguagem que são inatas, uma capacidade humana, comum a todas as línguas humanas.

Observa-se que tal gramática não se assemelha a noção de norma gramatical. Essa gramática normativa impõe regras com a finalidade de controle social. A gramática normativa afasta-se, portanto, da gramática intuitiva do falante, que adestrado em suas regras, não reconhece como competência natural.

As normas são variáveis e o que é considerado “certo” hoje, poderá não selo amanhã, assim, como muita coisa que já foi vista como “certa” ontem, já não o é mais hoje em dia. Oliveira Lima sugere que o caminho alternativo é a educação pela inteligência. Ao invés de despejar conteúdos ultrapassados, o professor de línguas pode provocar o raciocínio e a imaginação e a capacidade resolver problemas.

A noção de certo e errado é o que gera preconceito lingüístico, difundindo a idéia de que há língua superior e língua primitiva. A gramática descritiva visa estudar e descrever os fenômenos lingüísticos sem estabelecer julgamentos de valor. Além disso, faz uma reflexão analítica que procura compreender os fenômenos de modo objetivo.
A gramática de uma língua é, portanto, um mecanismo mental que permite juntar o conhecimento dos sons com os conceitos e idéias, construindo palavras e frases.
O lingüista Roman Jakobson propôs um esquema que sistematizou elementos constitutivos de todo ato de comunicação verbal, argumentando que ênfase em cada um desses elementos caracteriza uma função linguística.

A função expressiva emotiva centra-se no destinador ou emissor, a apelativa centra-se no destinatário, no receptor; a função referencial centra-se no referente, no contexto, de base denotativa, factual; a função fática centra-se no canal, ou contato físico ou psicológico; a função metalingüística centra-se no código, tem por finalidade verificar se o código permite a comunicação; a função poética, por fim, centra-se na mensagem, nas propriedades estéticas, nos ritmos enfim.






quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Gêneros Editorial e Crônica


1- O que é um editorial?

A linguagem jornalística adota o padrão culto da língua sem, contudo, perder o universo vocabular do leitor. O jornal procura organizar-se e adaptar-se às condições cognitivas do público leitor. Podemos dizer também que o jornal substituiu as cadeias dialógicas e narrativas as quais eram dadas a conhecer os fatos pelo boca a boca, anterior a imprensa. Com essa substituição, o ato de comunicação, pertinente ao intercâmbio de experiências, ficou, em parte, por conta do jornal, que traz os fatos ocorridos em diversas partes do mundo, numa seqüência de laudas escritas. O objeto de nosso estudo é o gênero jornalístico, para isso trouxemos o editorial do jornal O Globo. O editorial e a parte mais importante do jornal que expressa o ponto de vista deste sobre os fatos relevantes, levando em conta os reflexos e transtornos que estes fatos causam na vida social.

O texto de caráter opinativo explicita o pensamento da instituição mantenedora que, ao abordar a uma notícia ou a um tema qualquer, posiciona de forma crítica a uma vertente. Dessa forma a ideologia defendida pelo jornal perpassa ao interlocutor e o faz, muitas vezes, posicionar-se com a mesma tomada de opinião do editorialista. A começar pelo titulo: ”Nossa Opinião” (caso específico do jornal O Globo) que contribui para que o pensamento de editor seja absorvido pelo leitor.

No discurso, o editor utiliza linguagem denotativa para dar clareza sem incorrer no risco das ambigüidades da conotação. O texto possui a estrutura argumentativa que parte do pressuposto: tema, tese e desenvolvimento com o discurso mais objetivo possível e dispondo da neutralidade, melhor seria dizer um distanciamento, com verbos na primeira pessoa do plural. Esse recurso pessoal do verbo induz o leitor a acreditar que essa é sua opinião.

No título do editorial que tomamos como objeto de estudo “Um Passo”, notamos que a posição do sujeito-autor em relação ao tema (Segurança púbica) e de criticar o letargo, a falta de preparo e equipamentos de inteligência das instituições públicas de segurança no que tange a ineficiência dos serviços prestados à sociedade. O editorialista serve-se com isso da liberdade de imprensa no país para criticar, polemizar, depreender os assuntos que viram notícias e são pertinentes ao conhecimento do interlocutor.

2- Semelhanças e diferenças entre crônica e editorial:

A crônica e o editorial estão veiculados no jornal e ambas são produzidas e assinadas por pessoas renomadas e competentes para faze-lo, dentro da instituição que veicula. Ambas tratam de fatos da atualidade e se posicionam desta ou daquela forma para comunicar algo ao leitor, e tem como especificidades à efemeridade. No que tange às diferenças, o editorial carrega sobre si a responsabilidade de levar a púbico a opinião do jornal, a voz da instituição. A crônica, no entanto, traz a opinião do cronista que tem a função de recriar a noticia e tem a liberdade na linguagem e no conteúdo para produzir e explorar bem o assunto. O cronista discute o tema abordado de forma própria e até na composição estética do texto difere-se do editorial.

O cronista faz de sua crônica um diálogo com o leitor por sua linguagem subjetiva e suas conotações. Rubem Braga, famoso cronista, é um exemplo de diálogo entre escritor e leitor: “Mas ainda insistem?” “Ah, se eu pudesse escrever, aqui, insultos e adjetivos que tenho no bico da pena..” (Ao Respeitável publico) este trecho nos mostra uma forma própria da crônica, verbo na primeira pessoa do plural, trabalha com uma linguagem humorística e irônica, e com esses recursos Rubem Braga fala da enfadonha rotina de ter que escrever para agradar ao leitor. O “EU” constantemente presente na crônica aliado ao espírito criativo do cronista, muitas vezes, eleva o texto da crônica a um tom poético, um lirismo na prosa que estreita as relações entre crônica, poesia e poema.

Essas características estão notavelmente ausentes no editorial, onde a linguagem é objetiva, cientifica e com a neutralidade dos verbos em primeira pessoa do plural. Estes recursos adotados pelo editorialista são para dar respeito e aceitabilidade da matéria ao meio jornalístico.

O editorial tem como finalidade comunicar os fatos de forma clara sem dar margem para outras compreensões. O editorial nos dá ainda, subsídios para analisar – coma ótica do jornal, exceto o de título: Outra opinião– a formação discursiva que deriva das ideias sobre o assunto discutido. A crônica aborda temas atuais, mas não tem a função de persuadir apenas de levar o leitor a refletir o tema. De certo modo essa reflexão é inusitada se comparada ao modo tomado por outros gêneros jornalísticos justamente pela liberdade de que dispõe o cronista. Liberdade que leva o cronista a ousar e compor as crônicas com recursos e sonoridade, metáforas, metonímias, aliteração e outros. Isso aproxima a produção jornalística aos requisitos dos textos literários. O que atualmente é inexistente nos editoriais.

2- Relação entre o poema “Morte do leiteiro” de Drummond e crônica e poesia:

“O historiador e o poeta não se distinguem um do
outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa
e o segundo em verso (Pois, se a obra de Heródoto
composta em verso, nem por isso deixaria de ser
obra de historia figurando ou não o metro nela)
diferem entre si porque um escreveu aquilo que
aconteceu e o outro aquilo que poderia ter
acontecido...”“.
(Aristóteles.Arte Poética.cap.IX pág.43)

O poema de Drummond “A morte do leiteiro” aproxima-se de uma crônica porque ambas possuem verbos na primeira pessoa do singular com o EU muito presente e atuante nas ações. O teor das crônicas também, no geral, é bastante lírico com um derramamento das subjetividades, que logo percebemos um fazer poético por parte do cronista. Isso gera uma espécie de poesia em prosa ou prosa poética que dão a crônica status muitas vezes literários.

O poema referido dialoga com a crônica porque usa como matéria-prima a noticia, uma informação, algo da atualidade como a morte, violência, crime etc. Com esses elementos fez a composição do poema, com o núcleo temático da crônica. Mas o âmago do poema (A morte do Leiteiro) é a estética, o fazer literário que trabalha com recursos sonoros, imagens, metáforas, aliteração e com a liberdade de recriar e fingir, passear em meio ao inverossímil sem se preocupar com o juízo do interlocutor que sabe por onde divaga os textos literários. Nem a uma crônica versificada se atribui na totalidade caráter poético porque sempre terá que tangenciar o verossímil. Talvez essa seja a barreira, ainda, entre esses gêneros. O cronista trabalha seu ente poético, mas sabendo dos limites entre os dois gêneros.

A crônica tem recursos estilísticos, mas não deixa estes comprometer a compreensão do texto visto que os fatos históricos sempre sobrepujam a ficção e o eu, mesmo quando o tema é naturalmente poético. Vemos isso em Drummond: seu interesse é muito mais com a estética do texto do que com a própria informação. Já a crônica é pertinente a sua linguagem referencial com o intuito de informar e expressar sem comprometer essa função com os produtos da imaginação e da fantasia criadora. A arte poética próxima das crônicas ajuda a recriar o fato trivial, frio e melancólico de reportagens e notícias por uma criação leve e descontraída pela criação do autor.

Bibliografias:
Jornal O Globo
Arte poética.Aristóteles.ed.Martin Claret.2005
Apostilas fornecidas pelo professor: A Crônica
Resumo do trabalho apresentado ao UNIPLI.